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Uma Grande Paixão

            O Zé Amoroso é mesmo um apaixonado pelo futebol e, ao se fala em Copa do Mundo, é ai que vemos o seu grandioso amor pelo esporte preferido.

            – Já vi todas as Copas do Mundo – dizia ele com um brado retumbante, ostentando uma flâmula auriverde e relutando em defesa do País que tem um sonho intenso e raios vívidos – ninguém ganha do Brasil (urrava batendo no peito).
                                    *
            Foi com grande esforço que ele construiu sua casinha e nela  instalou um boteco no cômodo da frente, de onde sempre sai um dinheirinho para auxiliar na sua minguada aposentadoria. Dona Maricota, que há mais de meio século é sua fiel companheira de vida e de labuta, compartilhava no atendimento aos seus clientes de bebedeiras.
                                    *
            Estava tudo pronto para o início do grande jogo entre Brasil e Japão, e no bar de Zé Amoroso muitos torcedores vestidos a rigor,  já bebiam cervejas e cachaças, e se aglomeravam frente a uma churrasqueira provisoriamente instalada na calçada e que fumegava nas tiras de lingüiça, pedaços de frango e espetos com carnes de costela, e tudo em torno de uma animada descontração.

           – Escute aqui Seu Amoroso! – sentenciou um dos fregueses – Como é que nós vamos ver o jogo? Nesse seu radinho de pilha não dá! O senhor tem que providenciar urgentemente uma tevê. Afinal, nós merecemos. Se não tiver uma, nós vamos para outro boteco.

           Percebendo  que  seus fregueses iam  debandar, Seu Amoroso anunciou:

           – Fiquem calmos! Agora mesmo vou trazer a tevê que está no meu quarto.

           Mais que depressa ele subiu uma enorme escadaria, entrou no quarto e ouviu de sua esposa um relutante “não” acompanhado de um duro protesto:

           – Como é que pode, homem? Você está doido? Levar nossa tevê pra  bagunça? E se ela quebrar, aonde vou assistir a novela?

           Sem dar muita importância aos falatórios da esposa ele foi retirando os fios e sorrindo de contentamento respondeu:

           – Calma minha velha, a gente dá um jeito! Hoje, com os comes e bebes, nossos fregueses nos darão uma boa grana. Nós vamos lavar a jega, você verá!

           – Deus te ouça!

           – Ô mulher! Ajude-me a levantar: é pesada.

           – Você é mesmo um doido! Veja só o tamanho dessa escada e me diga como vai desce-la com esse monstrengo na mão?

           – Eu sou um homem ou sou um saco de batatas?  – respondeu descontraindo a esposa enquanto atravessava a porta do quarto, ao tempo em que, no rádio, soava o Hino Nacional. – Me ajuda, mulher! Depressa! – dizia ele já no alto da escada – O jogo já está começando e o pessoal está  me esperando. Rápido, me ajude!

           Em meio àquela afobação, eis que surge o Valdelino, seu filho mais velho, que, ao ver seu pai no alto da escada, ralhou autoritário:

           – Papai, o senhor está louco? Fique quieto. Não se mexa. Vou pegar essa tevê.

           Subiu a escada correndo e  tomou a tevê das mãos do ancião. Mas este, não se contendo, passou para o degrau de baixo e começou a descer de costas: protegendo o filho e a tevê. Mas, em certo momento, ele se enroscou no fio e despencou degraus abaixo, bateu a cabeça no chão e desmaiou.

           Naquele exato momento o Brasil fazia um gol, e na rua uma explosão de regozijo, um descontrolado alvoroço de prazer: Brasil, Brasil, Brasil....

           Dona Maricota, ao ver seu marido esticado no chão, entrou em pânico e saiu porta a fora gritando:

           – Socorro, socorro, socorro.

           Ninguém lhe dava importância, pois todos achavam que ela estava festejando o golaço do gorducho Ronaldo. Foi um Deus-nos-acode.

           Só no intervalo do jogo é que o levaram para o hospital aonde ele veio a se recuperar, sem a grana e sem ter ouvido a narração do jogo via rádio e nem via tevê.

           – A Copa, agora, só em 2010! – disse-lhe Dona Maricota.

           – Será que irei vê-la? – respondeu despindo-se da roupa hospitalar.
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 15/07/2006
Reeditado em 15/08/2008
Código do texto: T194808
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz