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                   Cabeças 
             de bandoleiros famosos

      
Durante vinte e tantos anos, as cabeças de Lampião e Maria Bonita estiveram expostas no Museu Etnológico e Antropológico Nina Rodrigues, aqui em Salvador. 

               O saudoso Professor Estácio de Lima, seu fundador e diretor até morrer, dizia que elas haviam chegado ao Nina pelas mãos do médico alagoano Lajes Filho, catedrático de Medicina-Legal, em Maceió, seu colega de cátedra.

          Os brasileiros que visitavam a capital baiana não deixavam de dar uma passadinha no Museu Nina Rodrigues para ver de perto as cabeças dos dois lendários cangaceiros, literaalmente mergulhadas num poço de formol. 

               Não era um quadro bom de se ver, claro. Menos para os estudantes de Medicina, de Direito e antropólogos.  Através dos crânios dos sicários eles procuravam saber quais "as relações entre a anatomia e o crime".

          Eu, particularmente, achava tudo aquilo muito estranho, apesar das formidáveis aulas sobre a teoria do "criminoso nato", que tem em Cesare Lombroso seu defensor. Inesquecíveis as aulas de Direito Penal ministradas pelo saudoso criminalista Raul Chaves, mais tarde meu paraninfo e sogro.

          O Mestre Estácio, meu inexcedível professor de Medicina Legal, era um entusiasmado pesquisador da vida dos cabras de Lampião. 

               Com o fim do cangaço, na década de 30, e a conseqüente debandada dos homens de Virgulino Ferreira, Estácio de Lima, num trabalho pioneiro, recuperou vários bandidos, transformando-os em cidadãos de bem; entre eles, o cangaceiro Labareda, que conheci pessoalmente.

          Ângelo  Roque, o Labareda, nomeado funcionário público, ajudava o mestre Estácio na sua labuta diária no Nina Rodrigues. E quando convocado pelo seu "padrinho", ilustrava, contando casos, as aulas de Medicina Legal, na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, onde me formei. 
       

               Estácio de Lima,  até por seus desafetos era reconhecido como um cidadão de inigualável fidalguia. Deixou para os estudiosos do cangaço um belíssimo livro intitulado A vida estranha dos cangaceiros
          Ofereceu-me um exemplar, com esta carinhosa dedicatória: "Ao querido Jucá e à sua dileta Ivone, com a mais afetuosa admiração. Estácio de Lima."

          Ver as cabeças dos dois famosos cangaceiros (e de outros que estavam no mesmo mostruário do Nina) não era, como disse acima, uma coisa gratificante. 
           Até que um dia, a pedido dos familiares dos cangaceiros, o Poder Judiciário da Bahia determinou o sepultamento das cabeças, sem exceção. As autoridades, cumprindo a ordem judicial, deram-lhes covas rasas, porém dignas.

           Quem as viu, viu; quem não as viu, só através de depoimentos, como o deste escriba, ficarão sabendo que as cabeças de Maria Bonita e de Lampião foram a principal "atração", durante décadas, no famoso museu baiano Nina Rodrigues, na Boa Terra.

           O que também aconteceu com os crânios de outros bandidos nordestinos, tão importantes quanto Lampião? 
            Jesuíno Brilhante. Quem foi Jesuíno Brilhante? Merece ser relembrado porque se trata de um bandido sui generis. Foi chamado de "O cangaceiro gentil-homem"; e por Câmara Cascudo, de "um bandoleiro romântico".
           Não fosse ele um bandoleiro tão importante, e não teria merecido uma crônica de Rachel de Queiroz, publicada em janeiro de 1991, acredito que na revista O Cruzeiro. Não tenho certeza. Também sobre ele escreveram dois grandes escritores cearenses: Rodolfo Teófilo e Gustavo Barroso.

            Jesuíno Alves de Melo Calado, o cangaceiro Brilhante. Nasceu no Rio Grande do Norte em 1844. Bom no gatilho, matou muita gente. Mas, segundo seus biógrafos, nunca cobrou pelos seus crimes; nem nunca roubou ninguém. 
             Era um intransigente defensor dos pobres e injustiçados do seu pedaço de chão, no coração do Nordeste. Na devastadora seca de 1877, Brilhante, para matar a fome dos flagelados, saqueou vários comboios que cortavam o seu sertão levando alimentos.

             Brilhante morreru em dezembro de 1879, em uma emboscada armada, no interior da Paraíba.  Lembra Rachel de Queiroz, que seu crânio, após ser exumado, "foi dado de presente ao alienista Juliano Moreira, no Rio, e inexplicavelmente sumiu". E completa Rachel: "Lá no sertão se acredita que foi o próprio Jesuíno que veio buscar a sua caveira."

             Lucas da Feira outro bandoleiro nordestino de alta periculosidade. Era tão badalado e temido, que D. Pedro II fez questão de conhecê-lo. Antes de ser enforcado, foi levado à Corte, e apresentado ao Imperador. 
            Também Lucas da Feira teve sua cabeça guardada, durante algum tempo, no Nina Rodrigues. O incêndio ocorrido em 1905, que destruiu parte da Faculdade de Medicina da Bahia e parte do Nina, engoliu a cabeça do sicário feirense.
 
           Fim triste tiveram, pois, as cabeças desses famosos bandoleiros que, ainda hoje, são temas da farta, rica e maravilhosa literatura de cordel, no glorioso e destemido nordeste brasileiro.
 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 15/07/2006
Reeditado em 12/09/2013
Código do texto: T194941
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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