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Apenas hoje

lisieux

Hoje eu só quero brincar de amanhecer com o sol e sorrir feito criança para as árvores e responder, também com trinados sonoros, aos passarinhos. Quero apenas fazer de conta que a noite não existe, que a sua boca escura nunca mais se fechará tragando todos os meus sonhos . Quero pensar que a minha voz de contralto ainda pode se erguer e entoar canções de amor, inda que dissonantes, inda que não tenham nada a ver com a paisagem que me cerca, prédios apontando para o alto, para o horizonte sempre enfumaçado de cidade grande. Quero, apenas hoje, pensar que a esperança ainda vive, linda e verde... que ela não morreu, crestada qual folha de outono pelo vento e derrubada no solo, depois soterrada por toneladas de terra marrom e seca, pisada por milhares de apressados pés.
Apenas hoje, quero inverter os meus papéis, deixar de ser dona-de-casa e sonhar.  Trazer de volta dos corredores da alma a menina, a adolescente, a mulher. Hoje quero sentir prazer apenas em respirar a brisa fresca e esquecer o cheiro acre de mofo do passado, retirar a poeira do mobiliário antigo que faz parte da minha decoração interior: arte-decô.  Quero abrir as janelas e deixar que a aragem invada meus cômodos, sopre as teias de aranha, vire as páginas do livro da minha vida que está, há anos, aberto na mesmo trecho, tão batido, que já está decorado. Hoje, só hoje, quero pensar que a história pode ter enredo novo, desenrolar dinâmico de filme de aventura, final feliz como em conto de fadas, melhor ainda, de novela da Globo.
Hoje, só hoje, queria poder estancar o sangue que jorra, vermelho e quente, das minhas veias, esvaindo-me a vida. Queria poder deter, secar,  as gotas que brotam dos meus olhos, escorrem e se cristalizam no meu colo, sobre o meu vestido preto, luto fechado. Queria poder vestir um vestido amarelo-brilhante  e sair  à rua reverberando qual girassol, buscando as cores, o brilho, o calor do astro-rei. Apenas hoje queria mudar minha natureza noctívaga, trocar meu amor pela lua e as estrelas pela claridade do dia de domingo que já está posto, em sua plenitude, do lado de fora da minha janela.
Apenas hoje, queria fazer de conta que estou viva.
Esquecer que a  noite ainda se faz em mim.
03.08.03
lisieux
Enviado por lisieux em 25/05/2005
Código do texto: T19519
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Sobre a autora
lisieux
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 61 anos
394 textos (14454 leituras)
3 e-livros (409 leituras)
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