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(imagem Miguel Lucena, www.thousandimages.com)

SOBREVIVENTE

          Tenho o grave defeito de ser forte a maior parte do tempo. Por isso, aprendi a chorar as lágrimas realmente importantes sozinha, distante da curiosidade mórbida dos que nada entendem ou da piedade alheia, quase sempre banal e medíocre. Sigo rompendo represas em lágrimas privadas e rasgando meus dramas sem cortinas de veludo ou espectadores admirados. Criei e aperfeiçoei minhas armaduras, é verdade. São bastante resistentes, devo admitir, mas estão longe de impenetráveis. 

          Dentro, faz frio muitas vezes e a escuridão assola. As chuvas freqüentemente causam inundações com potencial destrutivo incalculável e não, não sou impermeável. Encharco-me freqüentemente de tristezas e indignações pela mediocridade alheia, pela insensibilidade de tantos e pela mendicância emocional de muitos. Mas sobrevivo. Isso é coisa que se aprende. Sobrevive-se, se não se espera por ninguém, se o trabalho de refazer-se não é delegado a outros. Apenas eu posso fazê-lo, ainda que permaneça com minhas costas lanhadas pelos galhos com que o vento rasgou-me durante a tormenta, ainda que meus olhos permaneçam enxergando apenas a escuridão que ainda resta depois do temporal. 

          Sou meio dura na queda, embora muitas vezes seja necessário confessar que mais do que tudo preciso de um colo, de um abraço. E devo confessar também que no mais das vezes não o encontro. O mundo se habituou ao contrário. É assim com quem aprendeu a sobreviver.
 
          No meio de tudo isso há esses momentos, como agora, em que alguém tirou o tampo do ralo da represa e eu vejo minhas certezas e convicções escoarem por ele numa hemorragia que não há como parar e em que boa parte do que sou esvai-se rumo sabe Deus pra onde e eu fico a me fazer perguntas sem resposta certa sobre o que foi que andou me sustentando, de onde vinham minhas forças. De uma hora pra outra, tudo vira uma enorme lacuna. Uma dessas falhas geológicas na minha geografia emocional. 

          Tudo se transforma num enorme espaço em branco: nada das minhas perguntas para as quais sempre havia uma resposta, por pior que fosse. Até minhas inquietudes me abandonaram. Chego a ter uma espécie de saudade, uma nostalgia das minhas ansiedades que também parecem ter me desertado. Sou um cansaço de ser, um vestígio de nada, uma sensação de aborto. Do que eu devia ser e não fui. Uma espécie de terror de que isso é o que fica depois e que temo que nunca mais seja. 

          Lentamente, espero o ralo escoar o que ainda resta desta hemorragia de não-emoções e me lembro do que sou: uma sobrevivente. Levanto-me e vou procurar a tampa do ralo, buscar as emoções em algum ponto escondido e recomeçar o trabalho de encher novamente o nada em que me tornei.


Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 16/07/2006
Código do texto: T195539

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai