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crônicas do Rio II

A VISTA DA JANELA DE BANDEIRA,
DUAS VERSÕES PARA UMA TORRE SÓ

“Essa semana encontraram, você viu?”
“Viu o quê, criatura?”
“Encontraram uma fita, gravada há 38 anos, parece que é o último registro que o Bandeira fez de seus poemas, estava com um amigo chamado Lauro.  Um diplomata”
“Mas por que você está falando isso assim, de repente?”
“Não sei se você sabe, mas aqui mesmo onde nós estamos bebendo esse vinho tinto, talvez já tenha sentado Manuel Bandeira.  Estou lendo aqui no cardápio:  'Essa casa já foi freqüentada por Manuel Bandeira e outros grandes poetas.'  Ele era considerado a alma da poesia brasileira antes de Drummond.”
Eu vi que meu amigo grunhiu um “...hum” cerrando os olhos, um tanto vermelhos de desinteresse.  É a deixa, hora de pagar a conta e sair.  Esse meu amigo é um cara gente boa, bem verdade que ele não é dos mais versados em arte, tampouco em poesia; mas é uma pessoa utilíssima para te tirar da cadeia ou para processar uma fábrica de sabonetes que vendesse um “lavanda” por “citrus”.  Um advogado, cheio de si em seus artigos, incisos e parágrafos.
Àquela hora nossos movimentos já eram lentos, a última coisa que queríamos era chamar a atenção dos outros habitués da casa, que pareciam pessoas bem mais distintas do que nós.  Então saímos logo, por medo de espatifar garrafas ou incomodar com nosso texto cheio de gafes.  Ao sair do bar, passamos pelo antigo Beco das Carmelitas.  Lembro sempre das ruas pelo nome antigo, por causa dos anos de trabalho no Departamento de Bens Tombados e pelas tantas certidões de nomenclatura de ruas que tive que emitir.  Bem, foi então que uma imagem forte se precipitou em nossas retinas.  Era uma igreja em estilo barroco, debaixo de nuvens plúmbeas que anunciavam chuva grossa.  É verdade que era um tanto simples para quem, como eu, está acostumado aos ornamentos rococós de Minas, terra fértil nesse tipo de monumento para apreciadores angustiados.  Mas ela foi tomando corpo e paramos um instante para o momento mágico da apreciação do óbvio, que só se dá poucas vezes na vida.  E a construção encontrou em minha memória gasta, sensações oriundas de versos do poeta que via a vida da janela.  “Nossa Senhora do Carmo/De lá de cima do altar/Pede esmola para os pobres/Para as mulheres tão tristes/Para as mulheres tão negras/Que vêm da porta do templo/De noite se agasalhar.”
Hoje a Lapa se orgulha de seus templos profanos:  teatros, bares e casas de espetáculos.  Mas foi por causa da Igreja Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro que o nosso amado bairro boêmio nasceu, aqui era antes uma praia.  Areias de Espanha.  Mas o bairro mesmo, a Lapa como conhecemos, nasceu em volta do seminário e da capela construídos em louvor de Nossa Senhora da Lapa do Desterro, em 1751.
“Interessante essa igreja.  Estava aí o tempo todo e não havia notado.  O que você sabe sobre ela?”
  “Os frades carmelitas, na época da chegada de D. João VI, tiveram que desocupar o convento no Largo do Carmo para abrigar o monarca.  Lá onde hoje é a Praça XV. Aí eles receberam como residência o antigo seminário e a capela da Lapa.  Mas a construção sofreu várias reformas e em 1886 as torres ganharam azulejos.  Como você pode ver, a fachada em estilo barroco é ladeada por uma torre à esquerda, tendo a segunda torre ficado inacabada, à espera da instalação de uma sineira, caso chegasse a ser matriz.  O altar-mor e os laterais foram esculpidos entre 1775 e 1780.  Na mesma época Mestre Valentim esculpiu o camarim e o altar-mor.”
“O cara do chafariz da Praça XV?”
“Ele mesmo.”
“Lembro que na sacristia tem uma pintura interessante, do século XVII, de uma grande riqueza cromática, representando Santa Maria Madalena.  E santa melhor não haveria de ser para uma terra que abrigou tantos lupanares.”
“Lupanares?!”
“É.  Puteiros.  No  tempo das prostitutas polacas até a prostituição era mais lírica.  Havia de lupanares a 'pierrôs místicos'.  E essa era a vista da janela de Bandeira.  A vista do Beco.”
“É uma pena a igreja estar fechada.”
“Não acredito que você queria visitar a igreja a essa hora da madrugada.”
“Queria agradecer à Nossa Senhora do Carmo pela montmartre dos pobres!”
“É, estou vendo que você já voltou ao normal, começaram as piadas cretinas.”
“Engraçado essa coisa de a igreja só ter uma torre.  Eu lembro de uma outra história sobre esse caso.  Acho que você vai gostar, já que é um arquiteto-literato.”
“Tá, mas você paga uma saideira enquanto conta.”
E saímos em direção ao bar em frente à igreja para uma última cerveja, nesse tempo a chuva desaba, encolhemos os braços e esticamos as manga dos casacos.
“Não sei se você leu 'O triste Fim de Policarpo Quaresma', leu?”
“Sim.  E muita me admira que você tenha lido também.”
“Então, já faz tempo, mas eu me lembro que foi o despótico Marechal Floriano Peixoto, que com um tiro da artilharia do Encouraçado Aquidabã teria derrubado uma parte da igreja.”
“Francamente, você além de bêbado, não entende nada de literatura, muito menos de Patrimônio Histórico.”
“A igreja do livro era na Rua do Ouvidor, e era a  da Lapa dos Mercadores e não a Nossa Senhora do Carmo aqui em frente.”
“É, mas essa caso também é interessante.”
“Sim, mas Lima Barreto é outra história.  E vamos indo”
E fomos embora que o dia já amanhecia ou, como diria Bandeira “a luz branca da estrela da manhã já vinha vindo.”


Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 17/07/2006
Reeditado em 17/07/2006
Código do texto: T195998
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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