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crônicas do Rio III

A ÚLTIMA MISSA ANTES DE IR PARA A FORCA

Era domingo e, sem ter muito o que fazer além de assistir a filmes sobre capoeira e Zumbi dos Palmares na televisão, resolvi me aventurar numa caminhada pelo centro do Rio, na tentativa de encontrar referências que fossem além do que de mais óbvio a mídia me pudesse oferecer.  De dentro da paisagem carioca, haveria de brotar uma cena cotidiana, uma edificação, um som qualquer que colorisse de sentidos o ambiente nublado.  Muita chuva e vento temperavam o cenário do dia da consciência negra.  Bem, no fundo eu tentava mesmo era entender o que significava essa data para aplicar talvez um pouco de uma atitude politicamente correta ao meu comportamento ideologicamente confuso.  Mas a verdade mesmo, é que não fosse pela instituição do feriado municipal e a instalação de um cabeção metálico ininteligível na Praça Onze, a data passaria em brancas, quer dizer, em cinzas nuvens.  E foi caminhando a esmo pela Avenida Passos que indagações foram brotando, tão presentes e incômodas como as poças d’água que molhavam as calçadas e as minhas roupas.
Notei que, quase no final da rua, uma construção tenta sobreviver, sufocada pelos prédios no seu entorno.  A curiosidade primeiro me remeteu a breves descrições que saltaram das páginas de algum livro de Machado de Assis, que lembrava dos tempos de colégio.  Sabia  que ele havia freqüentado a Igreja Nossa Senhora de Lampadosa.  Foi o que primeiro me veio à memória e, a partir disso, acabei me interessando por aquela arquitetura um tanto curiosa, de estilo Mexicano, com todas aquelas luzes, fora o nome da santa, que não me remetia a nenhuma imagem conhecida dos santos católicos.  Fosse o caso de as portas estarem abertas, toparia uma visita para respirar um pouco do ar ambiente e saber como de fato ela teria ido parar ali.  Mas, como a chuva não desse trégua e a falta de imaginação me acompanhasse desde cedo - junte-se aí o cansaço e a aporrinhação causada pelos sapatos molhados e enlameados - decidi chamar um táxi, que tratou de me salpicar mais umas insuportáveis gotas de água suja.
Mas o pior foi chegar em casa e ver que a TV anunciava um filme de Cacá Diegues.  Fim de noite, nenhum sono, lancei mão da última opção disponível  para o fim do dia, que era tentar um acesso à  Internet.  E foi do meio de um monte de e-mails inúteis, que um me chamou a atenção, já que casava com as inquietações ainda latentes.  O remetente era um dos membros de um grupo de discussão, com o qual nunca havia trocado uma mensagem sequer.  O título era:  irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco (século XVIII).  Ao abrir, descobri que tratava-se de uma indicação de um livro de uma historiadora Paulista.
Só que era apenas uma indicação, não poderia ter o livro em mãos.  Então, permaneci ensimesmada, até que o telefone tocou.  Era minha amiga Ana, uma escritora de Minas, que atualmente trabalha num projeto sobre literatura afro-brasileira.  Imaginei logo que ela me salvaria, muito culta que é, na certa possuía alguns dados para sanar minhas curiosidades domingueiras.  Resolvi aporrinhá-la então, mesmo correndo o risco de ser chata, já que ela telefonara apenas para agendar uma entrevista.
 Mas para a minha sorte, a Ana é uma figura simpática e muito solícita e, por telefone mesmo eu fui descobrindo sobre a criação das  tais Irmandades.  Que elas foram a maneira que alguns negros encontraram para obter um pouco de respeito, em meio a uma sociedade dominada por brancos católicos.  Eram considerados, assim, os “bons-escravos”, que adaptaram a sua fé, trazida com eles da África aos rituais da classe dominante.
A Lampadosa foi uma dessas Irmandades, mas na verdade é uma construção que hoje só existe no nome, a verdadeira igreja original foi demolida em 1929, restando apenas o seu valor histórico.  Até mesmo os documentos foram perdidos com o alargamento da Avenida Passos, em 1920.
A Santa de devoção veio da  Ilha de Lampedosa, em algum lugar entre a Sicília e a África, na certa um desses ambiente míticos, dignos de um ensaio semiológico.  A irmandade ficou até 1748 na igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, que também pertenceram aos escravos. Depois de ganharem a adoção do terreno, eles iniciaram a construção do templo, que foi concluído em 1772.  Ali aconteciam ritos de um sabor tipicamente africano, como as festas do rei Baltazar, em que elegiam-se imperador e imperatriz, aos quais eram conferidos dignidade de soberanos.
E olha só que coisa irônica. Foi ali também que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, principal agitador da Inconfidência Mineira assistiu à sua última, para ser supliciado na forca alguns metros adiante minutos depois, na Praça que hoje leva seu nome, em 21 de abril de 1792.  É, numa irmandade de Negros e Pardos, justamente quando a problemática de maior relevância social na época – a escravidão – não fora levada em consideração por um movimento que, apesar de possuir caráter libertário, queria mesmo era salvar os interesses da elite.
Depois de saber disso tudo, encerramos a conversa e fui dormir sonhando com a cena.  O rosto martirizado de um Tiradentes que eu só conhecia das ilustrações de Pedro Américo, impressas nos livros de história; ele ali olhando para a cara de um padre negro minutos antes de ser morto e feito aos pedaços, como os ideais de liberdade, que excluíam, justamente os representantes desse povo, que ali se encontrava reunido, numa confraria de mulatos, para lhe conceder a última benção.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 17/07/2006
Reeditado em 17/07/2006
Código do texto: T196002
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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