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Distâncias

Nada como um dia dos namorados sozinho em casa pra nos fazer refletir sobre a vida. É impressionante como ficamos filosóficos quando estamos sós. Buscamos justificativas e conjunturas para analisar, tentando sempre encontrar as respostas, de preferência as que sempre queremos ouvir.

Este ano eu troquei a badalação pela contemplação. O dia dos namorados, para mim, poderia ter sido um dia sem graça, em uma festa, tentando achar alguém que eu não iria achar. Definitivamente não é um dia bom para se procurar alguém. O dia 12 de junho é o dia da celebração dos que se encontraram e não para os desencontrados de última hora acharem alguém com quem trocar presentes.

A opção de ficar em casa assistindo a uma daquelas comediazinhas românticas, aparentemente sem sal, me trouxe uma agradável surpresa que me deu a dica para esta crônica. Em determinado momento do filme, alguém diz que não há sofrimento maior que a dor de ver partir alguém que acaba de nos abandonar. A distância dos corpos, que um dia foi tão próxima, agora vai aumentando em uma progressão geométrica infinita e a visão dessa cena não possui comparativos de dor no campo amoroso.

Eu, particularmente, confesso que sinto menos dor em ser deixado que ter que dar o fora em alguém. Não é hipocrisia, quem me conhece sabe. O fato é que existem relacionamentos que iniciam como um trem desgovernado, levando tudo que vê pela frente, com força, valentia e verdade. Aí, de repente, os trilhos se acabam e vemos aquele monte de vagões começarem a desmoronar atrás de nós e tudo que podemos fazer é torcer para que, aquela avalanche de sentimentos, não se transforme em rancor e traições.

Nos deparamos então com o exato inverso do momento mágico da conquista, onde fazemos de tudo para convencer alguém a nos amar. Nessa hora temos de convence-la do contrário e, com o mesmo sentimento altruísta, com a mesma simpatia e se der, com um certo carinho.

É público que ninguém tolera ouvir aquele clichê horroroso: “você é muito especial, mas...”. Por favor, sejamos pelo menos originais.

Devo admitir que esse não é realmente meu forte, às vezes a minha covardia é maior que a vontade de tentar ser persuasivo e a fuga e o esconderijo se tornam opções mais confortáveis, embora tenham resultados bem mais desastrosos.

O problema de tudo isso reside na nossa incapacidade de perceber quando não somos mais desejados. Nunca queremos aceitar a idéia que alguém deixou de nos amar, ou de pelo menos querer ficar junto. Diferentes reações permeiam o comportamento humano, no momento do abandono. Uns se escondem no álcool e nas demais drogas, outros procuram os amigos para lhes alugar os ouvidos, há ainda os que saem ficando com quem encontram pela frente, na ilusão de que furtivos e casuais amores lhe venham a aplacar a dor, como uma morfina que alivia, mas vicia e destrói.

Eu prefiro um pouco de quase tudo isso, para não cair do exagero de nenhum deles e ficar refém de atitudes facilmente condenáveis.
Além do mais busco outros refúgios, minhas crônicas e os e-mails de desconhecidas pessoas que compartilham de minhas idéias, e me conforto também no comentário, de uma certa amiga que enaltece minha sensibilidade da alma, dizendo o quão sensível consigo ser, segundo ela, mesmo sendo macho. Acho que é um elogio, agradeço a ela.
Braulio Filho
Enviado por Braulio Filho em 17/07/2006
Código do texto: T196117
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Sobre o autor
Braulio Filho
Campina Grande - Paraíba - Brasil, 38 anos
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Braulio Filho