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a grande ressaca

Considerações muito pessoais sobre o dia do trabalho e comportamentos tele-adquiridos

“Ah, se eu não tivesse feito nada apenas por preguiça!, senhores, como eu me teria respeitado!  Ter-me-ia respeitado precisamente porque me senitria capaz ao menos de ser preguiçoso, haveria em mim uma qualidade por assim dizer, positiva, na qual poderia acreditar.  Pergunta:  quem és?  Resposta:  um preguiçoso.”

Dostoievski, in Notas do Subterrâneo



E a sensação ácida não me deixa.  Sei que já tinha mencionado – e sei também que minha originalidade tirou férias – foi dar uma desanuviada lá pelos lados do caminho de Enil, quem sabe; mas esse vapor verde coloriu o céu da minha boca hoje enquanto batia a cabeça no vagão feminino do trem (isso é outra história).  O caso é que ontem foi dia do trabalho.  Segundo consta, dez pessoas morreram na França três anos depois das lutas sindicais em Chicago, do primeiro de maio de 1886 para que pudéssemos saborear um dia inteirinho na mais absoluta pachorra, comer aquele churrasco, sorver mais um traçado no boteco sem culpa de perder a hora, bater um pratão de feijoada e assistir a um joguinho do Mengão na televisão, entretendo-se com os muitos sobrinhos e netinhos e outras atividades tipicamente brasileiro-suburbanas, para nem pensar nesse negócio de  exploração.
Quanto a mim, não crente no poder transmutador e transcendental do trabalho assalariado, como o velho Vargas queria, comemorei o dia fazendo absolutamente nada.  Aliás, é tudo o  que eu tenho feito, além de traçar planos de fugas para algum lugar distante do senso-comum que infesta o ar, desses olhares déjà vu que pipocam pela cidade, em cada beco, em cada bar, em cada praça povoada de tipinhos tele-fabricados.  Odeio tipinhos, mas que fique claro, tipinhos que se fabricam tipinhos.  Não os tipos por natureza, sacou?  Mas hoje não é minha pretensão e não tenho nem condições físicas para discorrer sobre as tribos pós-modernas.
Na terça-feira pós feriado, os ônibus estavam particularmente lotados, os motoristas insuportavelmente mal-humorados, as mulheres mais reclamonas do que nunca, os homens mais grotescos, os colegiais mais irritantemente galhofeiros e os raios do sol quase abriram um buraco no meio da minha testa.  No mundo estava escrito:  a grande maioria das criaturas humanas odeia o tipo de trabalho e rotina aos quais são submetidas.   Submissão, cada um que amargure a sua.
Tudo sacudia, parecia que o mundo inteiro girava numa ressaca coletiva.  A grande ressaca.   Quanto a esta pessoa aqui, provavelmente a mais irritada de todas, o labor day servira à um pensamento refrescante, mesmo sendo fruto da concepção tardia e amargurada de que trabalhar é  isso mesmo e não passa de: UMA DROGA.  É isso, uma droga maiusculosa, como diria Tom Zé. Não fazer nada, eis o sonho mais louvável dos românticos. E não estou falando de um romantismo inebriante de quem crê em certas utopias renascentistas.  Falo do romantismo de quem já se arrebentou em várias paredes por aí até saber que mesmo o mundo sendo uma bola incompreensível pendendo no espaço,   passar o dia encostado num almofadão rechonchudo ouvindo discos antigos e rindo sozinho, de si, do mundo, dos valores, da televisão, da psicanálise e da posição da eclíptica é um exercício sábio, solitário e macio como um mousse.
Não correr atrás, não ter planos, não se render às falácias do mundo capitalista, não consumir, não ter carnê (!) e amar seus sapatos velhos e fora de moda.  Sonhar apenas em adquirir uma flautinha e entoar sons agudos para as falanges que povoam as ondas do ar azul celeste.  Sei que isso é nada para a maioria das pessoas.  Mas o contrário disso, para mim também é nada.  E defendo a minha tese.  Não à complexidade dos sistemas:  regras para amar, regras para se vestir, regras para falar em públicos, regras para comer peixe frito, regras para escolher a hora certa de não-sei-o-quê, regra até para contestar sem ficar chato.
Os cogumelos efêmeros estão por aí, invejando e investindo contra as orquídeas eternas.  E precisamos defender nossas flores enquanto a TV digital não vem.  Lançar um olhar verdadeiro e luminoso que fure as espessas cortinas da hipocrisia que ameaça destruir a poesia restante no planeta dos grossos bombardeios industriais, de uma cultura não durável, instável, sem verdade, sem simbolismo, sem a verve do sentimento de quem busca e se permite aí até uma autodestruiçãozinha para encontrar o seu caminho.  Nos querem essa massa ordenada, controlável, espécie de  robô plastificado e teleguiado, encaixotados que no fim das contas terão como grande missão reaprender tudo de novo, o gosto os prazeres primordiais e essenciais da vida.
Esse dia me fez lembrar a última cena do célebre filme “Admirável Mundo Novo”.  Uma das protagonistas, uma mulher que fora ensinada, à força de uma educação mnemônica, a não amar e valorizar o lado mais chinfrim do sexo, um dia se vê grávida (de um homem que possivelmente ama ou amou) e tem que abandonar a cidade, já que decide ter o filho em condições, digamos, normais.  Ela procura então um lugar no litoral onde há uma bela praia.  Lá,  afunda os pés na areia molhada, enquanto sente o cheiro do garoto pequeno e frágil, readquirindo assim, toda a naturalidade que os oficiais do sistema nos tentam arrancar à força, empunhando bandeiras em nome da ciência, da tecnologia e dos bons costumes.  A moça do filme, não importa o nome, agora sabe que só precisa desse céu, desse mar, dos olhos de quem ama e sente-se forte para ser quem realmente é.  E escolher o curso do próprio destino sem culpa.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 18/07/2006
Reeditado em 18/07/2006
Código do texto: T196525
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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