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OCASO DE UM CORAÇÃO

lisieux

Pôr-de-sol no Guaíba. Dizem, que o mais belo do Brasil... um dos mais bonitos do mundo. A bola incandescente do astro-rei que, lentamente, mergulha nas águas amenas do rio... muito bonito sim! Cores que se mesclam no horizonte, vento fresco, prenunciando a queda da temperatura tão comum, à noite.
Noite do Rio Grande! Noite estrelada e fresquinha, mesmo no verão;  noite solitária e gelada no inverno, mas, sempre linda!
Horizonte cortado pelas serras, praticamente o único ponto em comum com a paisagem das minhas Minas Gerais, que minhas retinas guardam sempre, apesar de estar apaixonada pelos paisagens gaúchas.
Ah, Rio Grande do Sul... Lugar onde deixei o meu coração. Este coração alado que voa mais que o vento, mais que o pensamento; que se solta e, se pensando livre, se vê cada vez mais preso.
Coração atado ao rincão gaúcho, aquecido pelo mate na cuia que troca de mãos e pelas vozes nas coxias, alegrado pelo som da gaita nos galpões ou pelo violão plangente nas campinas verdes da querência já tão amada.
Ah, meu coração! Doido coração mineiro que, pensando em se livrar das algemas da Inconfidência, em abolir a sua própria escravidão, viu-se feito refém nas lutas gaudérias, perdido entre Maragatos e Chimangos, aprisionado por costumes e tradições tão diferentes das que conhecia!
Coração traiçoeiro que trocou o UAI pelo BAH, que se viu apaixonado pelo falar cantado do povo, pelo olhar franco e meio duro e pelo jeito, ao mesmo tempo tão  brusco e tão doce, do gaúcho.
Coração ingrato que enganou a dona, soltou-se do peito e deixou que ela entrasse no ônibus pra retornar à sua terra, às montanhas de Minas, completamente ôca! Buraco fundo perto das costelas, dor surda que não encontra eco nem consolo, que não se ameniza, que não dá trégua! E o coração lá, perdido nas serras, no Guaíba... longe, longe, como quê!
Meu coração vagabundo, sem juízo, "adolescendo" ridiculamente, mesmo sabendo que não tem idade pra isto.
Coração desesperado e louco que se deixou ficar nas mãos de um guri também inconseqüente e imaturo, também perdido e machucado, fantasiado de homem feito e machão; mas doce como manga-rosa recém colhida, como mel de abelha!  Voz tão sonora e suave como a mais linda melodia, mais perfeita que sonata de Bach, ao sussurrar "guriazinha"...
Ah, coração idiota! Coração de criança tão sonhador, aprisionado num corpo de mulher madura. Coração em ocaso, como o sol  de Porto Alegre.
Em brasa, ardendo, incendiado como o astro e que cai, melancolicamente no rio de lágrimas frias e vãs.
Pode-se ouvir o chiado do coração que se apaga ao afundar-se no rio.  Não morre, porém... infelizmente não morre, porque pertence a uma guerreira e sempre renasce das cinzas, como fênix, teimosamente insistindo em continuar... apesar da solidão, apesar da dor.
Mas, ao renascer no dia seguinte, não mais será o mesmo. Nunca mais o mesmo brilho, o mesmo calor, eternamente encoberto pelas nuvens negras da saudade.
Saudade de Porto Alegre. Saudade das serras. Saudade do rio. Saudade de ti...guri!
BH - 08.12.02
lisieux
Enviado por lisieux em 25/05/2005
Código do texto: T19674
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Sobre a autora
lisieux
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 61 anos
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3 e-livros (409 leituras)
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