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DO OUTRO LADO

lisieux

Hoje estou atravessando um daqueles momentos de trevas... momento de lembrar, relembrar, lembrar de novo, e de novo.
Saudade imensa de coisas antigas... cheiros, sons, toques, desejos. Saudade de tudo... e de nada! Saudade da menina de cabelos escorridos que costumava habitar dentro de mim. Saudade de pirulito zorro, de quebra-queixo na porta do ginásio, de chicletes Adam's de caixinha, das saias de pregas e de beijos na esquina, escondidos e apressados, com sabor de proibido.
Meleca! Pra quê é que a gente cresce? Pra quê ENVELHECE? Coisa mais chata esta eterna briga que travo com o meu espelho que teima em me devolver uma imagem que eu não quero ver... que não combina, em absoluto, comigo, com as coisas que estão aqui, guardadas no meu peito, na minha mente-videotaipe...que fica passando e repassando sempre os mesmos filmes (pior que a Sessão Coruja!).
Coisa chata me deparar com esta senhora meio-gorda, meio-velha, meia-sola, meia-idade... Coisa chata olhar nos olhos da mulher que me dá um meio-sorriso, ou me olha com olhar meio-atarantado como quem soubesse menos ainda que eu mesma, como é que foi parar do outro lado, aprisionada e perdida num mundo maluco, como "Alice no país do espelho" :  -"Ei... me tira daqui de dentro!" - ela grita. E eu do lado de fora, também não me sinto eu e quase quero pular pra dentro do espelho porque lá, talvez, a imagem ficasse congelada e não envelhecesse mais. Somos, eu e a mulher do espelho, duas faces de alguém que ficou perdido no tempo... longe, longe, como quê...
É. Melhor ir dormir... sonhar com nuvens de algodão... algodão doce azul de anilina... doce, como a minha infância, como os meus projetos de menina. Melhor dormir e sonhar com duendes e fadas e esquecer por algumas horas a bruxa do espelho. Esquecer também  a Lisieux madrasta que sempre pergunta: "espelho, espelho meu, existe alguém mais irreal que eu?" -
Amanhã, quem sabe, aparece uma fada-madrinha, com uma varinha de condão e faz retroceder o tempo...e faz parar de doer meu coração...

BH - 11.09.2003
lisieux
Enviado por lisieux em 25/05/2005
Código do texto: T19678
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Sobre a autora
lisieux
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 61 anos
394 textos (14454 leituras)
3 e-livros (409 leituras)
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