Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Sinal verde

Era um belíssimo dia de sol, Janeiro na cidade de São Paulo. O sol cozinhava cada centímetro de asfalto, de calçada. O calor era tanto que fazia brotar do concreto um vapor que subia e me turvava a visão. A cada passo, podia sentir o sol queimando a minha pele e o calor que invadia meu corpo vagarosamente e tomava conta do meu coração, da minha alma. Era uma mistura de alegria e angústia que me preenchia os sentidos.

Na calçada infestada de corpos que caminhavam; uns a passos largos e rápidos, ávidos e ansiosos, como que de encontro ao destino; outros lentos e preguiçosos flutuavam, se deixando levar pelo sol a pino do meio-dia. E eu distraidamente ia cada vez mais me aproximando do meu destino. Sem saber, ia assistindo a tudo e a todos como se vê numa tela de cinema, a vida acontecendo.

Parei para atravessar a rua e, na espera interminável do sinal verde, minha vida também acontecia. Verde...finalmente...atravessei e no meio da multidão, de impacientes, de olhares aflitos e gestos impensados, cruzei o seu olhar. O mundo, subitamente, parecia estar em câmera lenta. Todo o barulho, todo o vai e vem de corpos parecia não ter mais sentido...parecia não existir mais. O olhar era penetrante, era quente e doce. Os olhos mais bonitos que qualquer ser humano pode querer ter a sua frente...uma sensação de êxtase tomou conta de mim e quase que fotograficamente, percorri aquele rosto. De feições delicadas e ao mesmo tempo rudes, traços tirados de uma escultura Renascentista, perfeitas na imperfeição humana, sublimes em meio a miséria do mundo. Um poema Parnasiano, de métricas exatas e cuidados milimétricos, um rosto talhado a mão, por mãos divinas e detalhistas. As sobrancelhas pareciam desenhadas, duas pinceladas únicas que emolduravam um olhar enigmático, que desejava ser desvendado. Os lábios róseos e entreabertos num sorriso franco e apaixonante, pareciam querer me dizer alguma coisa, ou então nada...como saber? Em minha busca, me dei conta do brilho ofuscante e castanho, quase negro, dos cabelos que contornavam aquele rosto. Eram os raios do sol intenso que emprestavam mais cor e vida aos cachos macios que, equilibradamente, se moviam com a brisa suave que se espremia em meio a tantos corpos. O sorriso, o olhar; uma sensação intensa de paixão me invadiu e ombro a ombro; o mundo ainda em câmera lenta, mudo, imparcial; senti seu perfume. Uma mistura inexata de mar, de sal, de grama molhada de orvalho, de sol, de chão. Um cheiro que era doce e cítrico, suave e marcante...um perfume que nunca mais sairia da minha lembrança. Os olhos fixos nos meus, o sorriso acolhedor, o perfume... passando por mim, devagar, sem deixar meus olhos escaparem, nem por um segundo...

O mundo voltou a girar, o vai e vem se fez intenso novamente. Gestos impensados, gritos, risos, conversas pela metade. Outros cheiros penetraram meu corpo, o calor se intensificava mais e mais. Minha vista turva e perturbada, não achava mais aqueles olhos. Aqueles segundos pareciam ter se perdido no tempo e espaço; como que por encanto, deixei que aquele sorriso se fosse sem me dizer nada, sem me dizer a que veio. A multidão de aflitos não me deixou mais enxergar. Parei. Tentei recobrar os sentidos, dar conta do caminho que estava seguindo e então, continuei.

Era um belíssimo dia de sol, Janeiro na cidade de São Paulo. O sol cozinhava cada centímetro de asfalto, de calçada. O calor era tanto que fazia brotar do concreto um vapor que subia e me turvava a visão. A cada passo, podia sentir o sol queimando a minha pele e o calor que invadia meu corpo vagarosamente. Mas o que eu sentia agora, era um vazio...
Mari Mérola
Enviado por Mari Mérola em 19/07/2006
Código do texto: T197428
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Mari Mérola
São Paulo - São Paulo - Brasil
29 textos (2256 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 22:44)
Mari Mérola