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RETRATOS DA VIDA

 - Beba  um gole.
O homem maltrapilho de barba suja e olhar triste oferece a garrafa a seu companheiro de olhar enviesado. Este olha com adoração a garrafa que compraram ao final da tarde com as esmolas do dia. Poucas moedas no fundo de um chapéu esfiapado e que lhe renderam a garrafa de aguardente e um pedaço de mortandela que lhes serviram de jantar.

O convite do companheiro já bêbado parecia possuir duas faces. A que convida a beber e a que convida a esquecer. Tinham tantas coisas para esquecer. A sua volta havia o movimento das dezoito horas. Esse corre-corre de volta para casa. Pessoas impacientes que não veêm a hora de chegar ao aconchego do lar. Sentar-se em volta de uma mesa farta e depois sentir o calor dos cobertores que lhes aquecem as noites.

Depois do movimento alucinante sopra uma calmaria silenciosa. Quase sepulcral. Os dois companheiros bebem em silêncio, mas a alma grita o desespero de mais uma noite que se aproxima. Noite fria. Solitária. A sua volta a vida passa em tragos amargos. Eles não podem jamais compreender seus infortúnios. Apenas se afogam no liquido ardente que constantemente viram na garganta pelo gargalo de uma garrafa.

Olham o céu sem nuvens. E a lua que ilumina seus destinos. A noite é bela, embora fria. Talvez tenham a alma poeta e escrevam seus versos na memória dispersa de tantas derrotas. Com o olhar cansado sonham com um amanhã que não existe e as retinas visualizam seu destino na garrafa que acolhem ao peito e ninam com carinho de mãe. Mas lembram do passado. O futuro não importa. O futuro não existe nas suas condições. O passado é o alento, embora queiram esquecer.

- Lembra de...
- De...?
Calam-se. São tantas coisas para se lembrar. A casa distante, a esposa de olhar resignado e envelhecido precocemente, os filhos desnutridos... Eles jamais  reconheceriam os pais agora, maltrapilhos, escondidos na barba que crescera quase ao peito e o semblante miserável que já não sorri.

Partiram um dia, para trabalhar nas lavouras de café. Deixaram esposa e filhos na esperança de um futuro melhor. Um sonho longínquo de sustento que a distância jamais realizou. O dinheiro foi pouco. Adiaram a volta. Veio o insucesso. Afogaram-se na bebida para não sofrerem. Viraram mendigos.

- Quando volta para casa?
- Depois da próxima safra de café.
Antes ainda se faziam essa pergunta. Mas sempre adiavam a volta na esperança de uma melhora que nunca vinha. Depois essa pergunta morreu na garganta nessas tantas vezes que a volta parecia inatingível. Que resposta haveria de dar se nem mesmo conheciam o minuto seguinte? A esperança morrera. O projeto de voltar o vê somente na miragem dormente de um cérebro que navega essas voltas de ondas turbulentas da vida. A casa ficou mais distante. O amor da esposa apenas um sonho de amor impossível. Os filhos apenas herdeiros de seus infortúnios

- Mais um gole?
Enxugam uma lágrima seca. A noite é longa. O frio implacável. O liquido arde a garganta, o peito, a corrente sanguínea, a saudade... Bebem mais um gole. Outro. E outro... Não importa quantos goles até que a garrafa se esvazie ou até que o alvorecer os acaricie com sua brisa inocente. Depois adormecem o sono não dormido de tantas noites. Adormecem a saudade. Adormecem a esperança. Ela ainda existe?

Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 20/07/2006
Código do texto: T198179
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 53 anos
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Sonia de Fátima Machado Silva