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UMA IMPOTÊNCIA. BEM PASSADA, POR FAVOR.

               Se alguma coisa há pior do que a impotência, alguém por favor, me informe. Desconheço algo que consiga, com tamanha eficiência, reduzir uma criatura a nada. É um dragão de asas gigantescas que abarca tudo a volta de nós, e, claro, nós próprios. Asas que nos amarram com cordas imaginárias a um relógio cujo tic-tac é uma bomba-relógio pronta a explodir tão pronto o dragão decida que é chegado o momento. 

               Cospe dentro da gente sua fumaça repleta de dúvidas, senões, pra quês e por quês, e sua língua de fogo ateia em nós uma enorme fogueira de revolta. E tudo pelo simples prazer de nos dar a exata medida da nossa pequenez. Um nada. É o que grita este dragão a cada segundo que passa durante o tempo em que nos mantém paralisados.
 
               Vemos coisas acontecerem, antecipamos os próximos movimentos que estão bem diante dos nossos olhos, mas nenhum movimento nosso pode mudar o jogo no tabuleiro. A fumaça que vem da impotência lança um véu nebuloso, duvidoso sobre qualquer ensaio de movimento que pensemos.
 
               Impotência, paralisia, inutilidade. Sinônimos uns dos outros, funcionam em perfeita sintonia. Debater-se nos leva apenas a afundar cada vez mais no pântano de areias movediças em que nos aprisiona.
 
               Pensar é a pior coisa que se pode fazer quando abraçados por elas. Quanto mais pensamos, maior nossa aceleração interna e mais gigante se torna o monstro diante de nós.
 
               Buscar saídas, exercício inútil. As saídas só chegam quando é a hora. O tempo é o segredo, a chave das algemas. Assenhorear-se dele, o que quer dizer, esquecer-se dele. O passar do tempo é exatamente o ponto. É é por meio dele que o monstro nos enlouquece. Desligar o relógio. Não olhar os ponteiros. Aprender a arte da espera e, principalmente, a do não fazer nada.
 
               Os frutos não vão amadurecer porque achamos que chegou a hora. E quem tem pressa, come cru. E eu quero esse churrasco de dragão muito bem passado.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 21/07/2006
Código do texto: T199094

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai