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Nos dedos*

Por quê? Porque eu estou muito solitária... Serve de resposta? Não é pedindo companhia, nem pena; pedir coisas é uma que eu nem sei. Até, eu conto nos dedos perto de quantas pessoas eu me sinto acompanhada...

Já cheguei foi depois de noite inteira de companhias desinteirada. Parecia mais que eu não combinava com nada, e eu chorava depois, quando só. Era choro pro resto da madrugada: dava enfado, e eu dormia. Enfado sempre serve pra alongar meu sono, que eu tenho pouco...

Que tira o sono é o mundo, que anda destroçado, e destroça as coisas de dentro da gente junto com ele. Ele vai desmanchando as coisas, pra confundir os sentimentos, até a gente desdizer o que a gente queria ser, ou ter; até a gente não saber mais o que tem graça, ou não.

O mais desarrumado dessa história é que está todo mundo, mas, mesmo assim, nem se pode lamuriar os vazios... Tem mais é que forçar alegria a todo custo, senão: “ai, eu não agüento mais a Cristina!”. A gente só ouve assim, feito notícia na boca dos outros. Como se eu, ora... Mas tem horas que é preciso dizer: o mundo me desacatou, está me desacatando. Pra bem dizer, todo dia.

Um dia de tarde foi um menino lá do Serviluz. Ele era de brincadeira: agarrava a corda do mastro do barco atracado na praia, e se espichava até cair na água suja daquela baia inventada pelos quebra-mares. Embaraçou toda a razão do meu medo de pegar curubas.

Outro dia foi um grupo de senhoras que passeavam na beira-mar. De repente, elas pararam pra ver aquele tipo de outdoor que mostra duas propagandas, girando em faixas, de minuto em minuto, pra mudar. Elas davam gritinhos impressionados, seguidos de gargalhadas, toda vez que o outdoor trocava a propaganda. Eu que achava besta o funcionamento fácil daquilo, fiquei me achando tão...

Outro dia depois desse, ele foi embora. Ontem, o telefone nem tocou... Amanhã... Amanhã eu te vejo?... Eu te conto tanto nos dedos...


*publicado no site Crônica do Dia - www.patio.com.br/cronica
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 22/07/2006
Reeditado em 22/07/2006
Código do texto: T199354
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro