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O SABER E O SABOR: A LÍNGUA NÃO É PARA DINOSSAUROS

“Há poetas entre os homens
                                                  há versos entre as idéias.
                                               Todo pensamento comovido,
                                         tende naturalmente a se tornar verso.”
                                                            (Guilherme de Almeida)

Tenho lido recentemente algumas crônicas e contos aqui no Recanto, em que o autor volta à infância e relembra gostosamente aqueles dias. E digo gostosamente porque a gente vai saboreando junto as memórias dele, como se também fossem nossas, assim como se saboreia um arroz com feijão recém-saídos do fogão, como o das nossas mães. Eu, pelo menos, sempre achei que poucos pratos, por mais requintados que fossem, raras vezes me davam o prazer do arroz com feijão que minha mãe preparava. Talvez daí a minha preferência pelo simples. E devo dizer que esta preferência se estende para quase todas as coisas na vida.
Escrevo não porque pense que saiba fazê-lo muito bem. Escrevo porque amo as palavras. Aprendi a gostar delas cedo, incomodando todo mundo em volta até que minha irmã começasse a me ensinar a ler, já que não tinha ainda idade para a escola. Lia tudo e lia muito. Hoje isto é quase problema, já que tenho que ouvir meu filho dizer “Minha mãe não gosta de jogar nada, nem de ver tv. Só gosta de ler.” O tom é de crítica, mas prefiro levar como elogio. Leio de tudo, mas só consigo me afeiçoar às coisas ditas de maneira simples.
Que não me levem a mal os que preferem um estilo mais rebuscado, com palavras mais solenes e cheias de pompa: apenas não é a minha seara. Como leitora, sempre me senti um tanto desrespeitada quando via um texto truncado, com milhares de palavras para exprimir uma idéia que podia perfeitamente ser dita claramente com a metade delas. Ficava-me sempre a sensação de que o autor, desta maneira, buscava fugir ao que sempre me pareceu o papel das palavras: o de estabelecer contato, comunicação com o leitor. Não me parece que para escrever com arte seja necessário esconder-se atrás das palavras.
Aí vou também a minhas memórias: tive dois professores de Língua Portuguesa e Literatura que marcaram presença na minha formação. Ambos eram muito bons e apaixonados igualmente pelas Letras. Mas havia entre eles uma diferença gritante, além da grande diferença de idade. O mais velho, que num primeiro momento pensamos que nos levaria pelo caminho dos clássicos – ele tinha uma certa pose meio empertigada – e quem sabe pelos rumos de um estudo normativo da Gramática, revelou-se depois uma criança, não no sentido da imaturidade, mas da capacidade de adaptar-se  ao novo e principalmente, de criar, inovar. E sua atitude era, muitas vezes, extremamente mais ousada do que a dos próprios alunos. O mais novo, estranhamente, obrigava-nos a leituras que sei necessárias, mas que não posso me esquivar de dizer: eram maçantes, cansativas. E por isso mesmo, afastavam-nos dos livros que ele tanto amava. Ele acreditava naqueles textos, amava-os. Mas não conseguia nos levar até eles. Ele próprio talvez tivesse chegado a eles por vias equivocadas. Pela via da obrigação, certamente.
Rubem Alves escreve em uma crônica a respeito do ato de escrever que “a leitura tem de ser uma experiência de felicidade.” E para explicar bem isso, acrescenta “Não se pode comer por obrigação.Não se faz amor por obrigação. Não se pode ler por obrigação.” Nada é mais verdadeiro que isso. O texto deve ser um objeto de deleite, para ser comido. Aí é que entra o meu velho professor: com sua postura aberta em relação aos textos, ele nos levava para longe do preconceito da erudição. Como Roland Barthes um dia resumiu o sentido de ficar sábio: “Nada de poder, um pouquinho de saber; e o máximo possível de sabor...”
          Era esta a fórmula. Saber e sabor são a mesma coisa. E a origem latina das duas palavras é a mesma: sapare quer dizer tanto saber quanto ter sabor. Não por coincidência a gente diz que “isto sabe a morangos” referindo-se ao gosto da coisa.
          E acrescentava: a língua é viva, dinâmica. Quando deixa de ser usada para ser compreendida, quando vira reduto de eruditos, ela morre. Sem salvação. Assim nosso Português tão belo: expandir-se por um país tão grande como o nosso, só a fez mais rica. A convivência com o diferente, seja ele de origem acadêmica ou erudita, ou ainda com a fala dos menos instruídos fez com que se tornasse esta coisa maravilhosamente rica em estilos que hoje é. E tanto mais simples se faz, mais rica e abrangente se torna.
Saudades do meu professor. Deixou-me um belo ensinamento: ame a língua, faça-a um instrumento de propaganda dela própria, alcance o leitor, essa é a idéia. Mas principalmente, ensinou-me que quem se encastela no púlpito da erudição só presta serviço a si próprio e não deixa que se cumpra o propósito principal da palavra. E principalmente, fossiliza. Vira dinossauro. E a língua não é para os dinossauros.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 26/05/2005
Código do texto: T19983

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154021 leituras)
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Débora Denadai