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NA ENCRUZILHADA. SEM SEMÁFOROS.

Diariamente percorro o mesmo caminho que me leva  à escola do meu filho.
Diária e invariavelmente, o pequeno diabinho reza o mesmo refrão e canta o mesmo estribilho:
- "Manhê, porque é que tem que ter nesta esquina essa encrenca de  semáforo com três tempos?"
           Lá vou eu, no papel que é a sina das mães, explicar o incompreensível, pelo menos para os nossos filhos. Digo que não é encrenca nem tormento, uma necessidade. E lá vai discurso:
- "Meu filho, é questão de segurança. Os sinais são necessários, são instrumentos pra mostrar quem pára e quem avança"
Uau! Maravilha, me safei. Pronto. Resposta dada, problema resolvido.
Dançou, colega.Nada feito. Ele continua, na lógica própria de sua idade, a achar que aquilo é uma encrenca,  que só atrapalha, atrasa seu ritmo, sua velocidade.
De tanto responder a mesma coisa todo dia,  sem querer, acabo fazendo logo minha própria analogia.
Fazemos a vida toda o mesmo caminho que nos leva, Deus sabe pra que lugar. Seguimos aqui e ali os sinais de trânsito que a vida, as pessoas, o sistema
e sei lá mais quem se encarregam de nos mostrar. Mas o interessante é perceber
que sendo mesmos os caminhos, ainda não os sabemos. Perdemo-nos várias vezes por ruelas desconhecidas que sempre estiveram por ali e por onde não deveríamos ir. Mas vamos.
Quanto aos sinais, mesmo sendo muitos e por vezes, até bem repetitivos e conhecidos, nem sempre os compreendemos. Pior ainda é concluir  que ainda que
conheçamos a estrada, ficamos sem saber por onde ir se damos numa encruzilhada sem seta indicativa, sem sinal de preferencial, nenhum semáforo, nem de dois tempos - quem dera, três tempos seria uma benção!
Sem mapa, sem bússola, nenhum instrumento, manual de navegação.
Encruzilhar-se completamente só. Ninguém pra dizer por onde ir, qual o caminho certo ou ainda, situação mais terrível, dezenas de auto-nomeados guias que mal conhecem suas vias, mas cheios de palpites “ infalíveis" e lá se vai nossa pobre alma se quebrar de cara no primeiro canteiro.
            Encruzilhar-se completamente nu, com a alma totalmente pelada,
a mente inteiramente fragmentada pela falta dos famosos sinais que aprendemos tolamente seguir.
            Encruzilha-se. Todos os dias. Todas as horas. Em todos os pontos da estrada.E não há mapa. Nem guia. Nem sinal de três tempos.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 27/05/2005
Código do texto: T19989

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154015 leituras)
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Débora Denadai