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O INVISÍVEL

                                  “Não me deixe só, eu tenho medo do escuro”. Vanessa da Matta não é a única. Na cozinha, logo acima do microondas, tenho velas e fósforos. Tudo em local fácil de ser achado quando a luz faltar. Todos os dias, mulheres grávidas em todo o mundo dão à luz meninos e meninas. Todos os dias alguém fecha os olhos e tantos outros não querem abri-los.
                           Meus momentos de escuro. Um: a hora do amor. Com a idade, é melhor não ver nem se ver. Dois: saída do escritório no fim do dia. Faço nas trevas o trajeto até o quarto. Inseguros segundos. Conheço o itinerário e, mesmo assim, tenho medo de, outra vez, arrancar a unha no pé da cama.
                                   Tirésias, cego por ter visto Minerva nua, foi o maior vidente da Grécia. Ante as súplicas Cáriclo, sua mãe, Minerva, já que não havia como voltar atrás, concedeu a ele  o dom da adivinhação. Esse dom, de enxergar para além das aparências, ele o conservou mesmo depois de morto. Foi ele quem ensinou a Ulisses o caminho para Ítaca e revelou para Édipo seu incesto. Tirésias perdeu a primeira visão e ganhou outra infinitamente melhor. Transformou seu castigo em bênção.
                                  Quando soube ter casado com a própria mãe, Édipo furou os olhos. É melhor ser cego do que ver a própria desgraça. Na mitologia, a desgraça alheia, também provoca cegueira. Castigada - também por Minerva que não tolerava concorrência em beleza - Medusa teve sua sedosa cabeleira transformada em serpentes. Quem a olhasse viraria estátua de pedra. Perseu, olhando Medusa refletida em seu escudo, conseguiu enganá-la e cortar-lhe a cabeça.
                                  Os cegos, na sociedade burguesa de aparências e superficialidades, são guardas da fronteira das coisas essenciais.  Como Tirésias, eles nos chamam a ver -como dizia o breguinha Pequeno Príncipe – o que é invisível aos olhos.
                                  Nosso medo do escuro não é apenas por causa dos fantasmas. Nosso medo do escuro e dos cegos, como na hora do amor, é por medo das verdades. Verdades invisíveis à primeira vista. Verdades para as quais velas e fósforos não têm serventia.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 23/07/2006
Código do texto: T200069
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5110 leituras)
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