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Malditas Pipocas
Rosa Pena


Por causa da chuva que castigou impiedosamente no Carnaval, nossa casa virou o BBB. Quatro casais com os respectivos filhos, confinados no mesmo teto com queda de luz e de expectativas. Todos se conhecem e são relativamente amigos, e como em amigos não se põe defeitos, apenas características e particularidades, o exercício de convivência parecia não ser tão difícil.
Conheço Marisa e Arnaldo há dez anos. A amizade de nossas filhas estendeu-se a nós. Viajamos com frequência juntos.Arnaldo é um cara legal, todos gostam muito dele, então sempre achei estranha, quase injusta a vida paralela que Marisa leva. Ela tem um amante.

Minha intimidade com ela é irrestrita em relação a quase todos os assuntos. Falamos abertamente sobre filhos, economia, política, religião, detergente, absorvente, climatério, meia-calça, novela. Nunca conversamos sobre qualidade e preferências sexuais. Aliás, esta é uma particularidade minha nunca fui chegada a falar de minha vida na cama.É óbvio que sempre passa para os mais íntimos a satisfação ou frustração amorosa, por um sorriso, pelo viço da pele, pela calcinha de renda esquecida no secador, pela urgência em clarear os pelinhos da barriga, pelo beijo roubado na cozinha. Acho que os indícios são o quanto basta.
Fiquei sabendo que ela tinha um amante no ano passado, em um fim de semana aqui mesmo. Depois de uma briga do casal, ela chutou o balde e partiu para arrumar a mala decidida a ir embora. Ela chorava e fui ao quarto dela, tentar amenizar o climão
.

Neste dia, ouvi as confidências que não queria ouvir e fiz pequenas ponderações que fogem ao meu estilo. Não me meto em relação de casais.

Ela pediu desculpas pelo barraco na sala, por saber que é detestável e que o uso contínuo dela é o cancelamento do passaporte para uma convivência legal. Perguntou-me de supetão o que eu achava de uma mulher ganhar de presente do marido uma torradeira no seu aniversário de quarenta anos. Fui obrigada a reconhecer: — Uma merda!

Ponderei que fatos assim acontecem, visto que eu já havia recebido de presente uma panela de pressão do meu marido em um Dia dos Namorados. Na época não fiz escândalo, apenas esperei o aniversário dele e o presenteei com um joguinho de sete panos de prato, com os dias da semana bordados em ponto de cruz. O da segunda-feira tinha uma galinha linda. Quitei e aquietei minha frustração com uma ação. A partir dali, flores sempre acontecem em datas especiais.

Bem, é óbvio que Marisa não havia arrumado um amante por este fato isolado. Esse era apenas mais um, que demonstrava a passagem cruel em que a mulher deixa de exercer sua função de fêmea para ser exclusivamente mãe e dona-de-casa em horário integral.Novamente ponderei com ela que a vida a dois leva a esta acomodação dos sentidos, faz parte do curso, e se existe amor vale a pena investir no carinho e envelhecerem juntinhos.

Marisa, então, em um rompante, pediu-me que a olhasse firme, que a analisasse em formas e atitudes e visse se ela já estava no momento da tal acomodação. Olhei-a firme, de cima a baixo, com a crueldade feminina, pronta a achar defeito, rememorei seu jeito de ser e sorrir, seu cheiro, seu andar, seu tom baixo de voz, e fui obrigada a reconhecer que estava diante de uma mulher no esplendor.
Ela falou que Arnaldo não namorava mais há muito tempo. Fazia sexo com dia e hora marcada, mas não beijava mais na boca, não sussurrava bobeiras em seus ouvidos, necas de mordidelas na nuca, de roçadas fora de hora.
Marisa confessou, naquele momento, que não havia arrumado um amante, mas sim um namorado. Beijava muito na boca, na orelha, nos olhos. Adorava ser chamada de querida e ficar naquele jogo de empurra-empurra no telefone: “Desliga você primeiro, meu amor.” Ouvi em silêncio. Nada a dizer.

Neste Carnaval, devido ao confinamento, consegui entender melhor minha amiga.
Chovia muito, a luz acabou. Sentamos os casais na varanda e começamos a cantar, olhando as goteiras do telhado. As crianças enfurnadas na garagem. Começou a rolar um clima. Mãos na coxa, coxa nas mãos, bocas que se calam.
Arnaldo, no outro canto, preocupado com a volta da luz, dá um berro do nada.
— Marisa faz pipoca. Cai bem com cerveja!
Malditas pipocas!

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Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 27/05/2005
Reeditado em 26/10/2014
Código do texto: T20031
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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