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CARPE DIEM. A ALEGRIA MORA NO AGORA

“Dia em que não gozaste não foi teu:
Foi só durares nele.
Quanto vivas
sem que o gozes, não vives.”
(Fernando Pessoa)


Cá estou de novo a falar no tempo. No tempo que corre, que não espera. No tempo que passa, e uma vez passada a hora, nos desespera. No tempo que não volta e nem se adianta. O tempo. Uma palavra que começa e que acaba, como ele. Das alegrias que postergamos porque agora não temos tempo. Da alegria do momento que não gozamos, porque estamos ocupados planejando nossa felicidade futura.
No último texto que escrevi (O saber e o sabor: a língua não é para dinossauros) mencionei uma fala de Roland Barthes, que um velho amigo me contou: “Nada de poder, um pouquinho de saber e o máximo possível de sabor...”. Resumia um tanto a sua postura diante da velhice, e segundo consta falou muito sobre isto numa conferência feita pouco antes de morrer. Por esta razão, fico imaginando,que só depois de passado muito tempo de nossas vidas é que chegamos a esta sabedoria: a de que não há que se planejar o depois, se não somos capazes de viver o agora.
Não falo de ser inconseqüente, de não pensar nas coisas práticas que nos garantam uma certa tranqüilidade mais tarde. Falo de ser capaz de chegar uns minutinhos atrasados para ver um pôr de sol, que não se sabe quando terá igual. De parar em algum lugar onde a lua nasce em todo seu esplendor, cheia, amarela e ligar para alguém importante pra você e dizer: “ Venha aqui ver que beleza aquela lua no céu.”
Se pensarmos bem, vamos ver que não é preciso muita coisa. A alegria mora perto de nós. Ela vive no momento em que as coisas se apresentam. Ela não mora no futuro, sobre o qual sabemos nada. E a gente não a vê, porque estamos com a cabeça tão ocupada que cegamos nossos olhos. Cegamos os olhos da alma.
A alegria mora em coisas muito simples. Ela não vive no contentamento efêmero de comprar aquele carro ou casa maravilhosos, que nos custaram anos de aperto ou de pequenos prazeres não realizados em função da grande conquista futura. A gente deixa pra ser feliz no futuro e quando ele chega, não é o futuro que pensamos. E o que planejamos ontem já não se aplica mais.
É uma pena que a gente só vá se dar conta desta verdade, como Barthes, quando a vida quase toda já se foi. Ou, como Hegel menciona, na Filosofia do Direito, numa espécie de lapso poético, “a coruja de Minerva só abre suas asas no lusco-fusco do fim de tarde.”
Meu consolo é que, como hoje tudo anda tão depressa, os mais jovens estejam percebendo, antes de Barthes ou de Hegel, ou dos de minha idade, a verdade contida nestas palavras. Que não seja necessária pra eles a luz do crepúsculo para aproveitarem seus dias.
E quanto a nós, que usemos na prática a velha e conhecida expressão: CARPE DIEM.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 27/05/2005
Código do texto: T20090

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154036 leituras)
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Débora Denadai

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