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Jeito estranho para deixar de beber

Interessante observarmos que a vida é uma dama caprichosa, mestra determinada, que não se detém a refletir sobre os meios que utiliza para ensinar, desde que a lição seja dada e aprendida por aqueles a quem se destina.
Uma família que conheço, do interior do Paraná, lá pelas bandas de Cambará, viveu uma situação em que ficou patente esta característica da vida.
Na década de 50, os boêmios não contavam com casas noturnas como hoje existem, não havia a modernidade das danceterias, e os autênticos homens da noite, perambulavam pelos barzinhos na companhia de violão e whisky, já que a cerveja ainda não havia sido promovida a soberana, num reinado que pertencia, sem dúvida, a um tipo clássico de bebida de “homem”...
Pois muito bem, um dos membros desta eminente família manifestava suas inclinações para a boemia, e a cada noite, junto ao seu grupo, ia pelos bares compondo suas melodias, ensaios já de uma nova bossa, e desfrutando esta fatia, bastante singular, da juventude, independente de época, raça e credo...
O pai deste moço, respeitável figura da sociedade local, um homem trabalhador e avesso a qualquer tipo de vício, descabelava-se a cada vez que se via as voltas com a chegada do filho mais velho em casa. Cambaleante, com um sorriso debochado e os olhos vidrados pelos efeitos do álcool, sempre reservava ao pai uma palavra de carinho e bom humor, o que, de certa forma o desarmava, e dificultava sua atuação nesta faceta, pouco desejável do primogênito!
Uma noite, aos costumes, estava ele com os amigos curtindo a noite, entre batucadas e modinhas, quando no bar, chega um conhecido deles e comunica que a avó de um dos rapazes do grupo havia falecido...E o velório estava acontecendo na casa do tal amigo.
Fez-se um silêncio pesado, próprio da perplexidade da juventude, quando se depara com a morte, uma vez que a cultura ocidental, não nos prepara para lidarmos com ela...E, cá entre nós, também deixa a desejar quanto à vida...
Após o momento de impacto, todos falam ao mesmo tempo, e comentam de maneira indefinida a ausência do amigo, que, em verdade, apenas agora estavam notando, uma vez que todos ali, já haviam abusado, e muito, da bebida...
Ao esgotarem os lamentos, as colocações pseudofilosóficas, peculiares às mentes ébrias, decidiram que iriam imediatamente ter com o amigo, oferecendo, segundo eles, o que deveria ser um apoio...Altamente questionável á um mero observador que tivesse acompanhando os movimentos sonoros dos copos, entre eles...
Deixaram a mesa, solicitando ao dono do bar que ficasse responsável por algumas horas pelos violões, e... Assim retiraram-se.
Formavam um grupo até que pitoresco. Quatro rapazes, cambaleantes cruzando as ruas as três da manhã...Davam a idéia de estarem ensaiando alguns passos de um bale de coreografia duvidosa, até para os dias de hoje!
Ao chegarem a casa do amigo, antes de entrarem na sala de visitas, onde estava sendo velada a tão querida avó, aprontaram-se da melhor forma que puderam. Um ajeitava as roupas do outro num esforço para demonstrar uma dignidade um tanto ausente nos trajes amassados e desalinhados...
Dirigiram-se aos pais do amigo, cumprimentaram, e foram em direção ao caixão, exposto entre quatro velas e um aparato impressionante, aos olhos inocentes de jovens não tão inocentes assim...
O amigo, ao lado da avó, observou curioso o grupo adentrar a sala, e por um segundo, sentiu-se feliz pela solidariedade dos companheiros, seguida rapidamente de uma certa preocupação ao observá-los mais atentamente e perceber, de onde vinham.
Juntou-se aos recém chegados, e passou a agradecer e conversar baixinho... Todos se distraíram e não perceberam que um deles havia se dirigido ao caixão e se debruçara sobre a velhinha, lá permanecendo com o rosto abaixado, aparentemente, em silencioso pranto...
O grupo ao lado já conversava há um tempo considerável, quando o abalado neto, pede licença e vai até o companheiro que continua debruçado sobre sua avó.
Baixinho, disse ao ouvido do amigo:
- Ei, acho melhor você sair daqui, já está pegando mal... Você mal conhecia minha avó... Pare de chorar...
O amigo continua abaixado, e virando-se de lado sussurra ao companheiro:
- Nada disso amigão... Não estou chorando... É que passei mal aqui. Vomitei!

Esses rapazes hoje andam na casa dos sessenta... E um
deles me disse que desde aquela noite, nunca mais se excederam na bebida!









Priscila de Loureiro Coelho
Consultora de Desenvolvimento de Pessoas
Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 27/05/2005
Código do texto: T20108
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
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Priscila de Loureiro Coelho