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FLAMBOYANTS: A HISTÓRIA DE UM AMOR JARDINEIRO

Ando falando demais no tempo. Coisa inevitável para quem já o desperdiçou por demais e sabe depois o tamanho da bobagem que fez. E dos estragos. Tarde (mas não demais, já que mudou muito meu conceito de tempo) encontrei no meu passeio pela vida um amor jardineiro, como escrevi em meu poema Meu amor é um jardineiro. Não apenas por ter saído à doida semeando flores em volta de mim e dos meus dias. Não somente isso. Ele tem algo que é necessário aos jardineiros, que para mim são todos poetas: a paciência de plantar, de cuidar e aguardar o florescimento. Tem também a mesma capacidade de admirar-se, de emocionar-se diante das flores. Esta a semelhança com os poetas: a paciência de gestar e o cuidado com o que está gestando. E descobrimos que ambos gostávamos demais dos flamboyants.
Quando ele apareceu o jardim estava por demais abandonado. Moitas de urtigas cercavam meu coração. Quem se aproximasse, arriscava-se a queimaduras graves. Havia mato e carrapichos por toda parte dos canteiros de minha auto-estima. Quem pensasse em tocá-la, certamente se estrepava. Plantas carnívoras e venenosas, além de trepadeiras parasitas agarravam-se aos meus vasos de bem-me-quer e amor-perfeito. Estavam ambos à morte. Os beijos, outrora vivos e coloridos, tinham cedido seu lugar a uma enorme comigo-ninguém-pode. Mas ele gostava de flamboyants. E eu me lembrei, num lapso de distração, que também me agradavam aquelas árvores em flor. Árvores incendiadas, em chamas, pensava eu. E me agradava delas.
Não foi fácil a semeadura, tampouco o foram os cuidados para que as sementes brotassem. Mas ele o fez, mesmo sem o saber. Tempos secos e difíceis ameaçavam o jardim constantemente. E devo dizer que colaborei um bocado para que assim fosse. Mas todo jardineiro, como todo poeta, é também um bom teimoso. Se percebe na terra ainda uma pequena possibilidade, desanda a adubar e prepará-la para o plantio. Assim ele. Continuou confiando na pequena possibilidade daquele jardim. Aos poucos deu cabo dos carrapichos e algo mudou no meu sorriso. Girassóis, eu creio, foram colocados no lugar do mato de antes. Sem muito barulho, arrancou cuidadosamente as urtigas e meu coração avermelhou-se feito uma caliandra. Cuidadosamente, foi extirpando os parasitas e meus vasos de amor-perfeito e bem-me-quer floresceram novamente.  E um dia, meu amor jardineiro, sabedor que ainda havia trabalho pela frente, deu-me algo para as horas de desesperança: uma foto tirada depois de uma chuva de um belíssimo flamboyant em flor. Uma árvore incendiada.
Realmente era linda aquela foto, transformada numa grande ampliação com moldura que tenho ao lado da minha mesa até hoje. Boa sacada esta da foto. O amor tem que ser assim: um flamboyant em flor, uma árvore incendiada. E temos que vivê-lo enquanto se mantenha assim. Mesmo sem o saber (?) meu amor jardineiro fez algo incrível: botou diante de mim flamboyants que vão estar permanentemente floridos.  Como está ele a fazer todos os dias com este amor.
Flamboyants em chamas: é o que somos.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 27/05/2005
Código do texto: T20167

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai