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Diálogo Com A(s) Cris(es)

- Ei, Cris!

- Quem está me chamando?

- Eu, oras, a Cris! Vamos continuar a brincadeira ou não?

- Que brincadeira?

- Esconde-esconde. Eu me escondo de você e você de mim.

- Mas se eu sou você, como fica isso?

- Não... você não é eu, nem eu sou você. Nós não somos quem pensamos ser.

- Pára! você me confunde!

- Eu? Imagine! Já sei! Como somos duas em uma, vamos nos esconder da Cris real?

- Mas eu nem sei quem ela é! E eu tenho a impressão de que nem você sabe.

- Você até tem razão! Eu acho mesmo que ninguém a conhece. Nós duas conseguimos neutralizá-la há tantos anos que nem nos lembramos de como ela é.

- Mas você sabe que somos falsas, não é?

- Isso eu sei. Só não sei se me interessa isso.

- E você acha que somos felizes? Pense bem! Sendo criações, seres irreais, o que somos não passam de fantasias. Nossa alegria é falsa, nossos pensamentos e conquistas também. E até quando levaremos essa brincadeira?

- Bobona! Olhe em volta! Não somos somente nós duas! Olhe quantas Cris por aí! Tá vendo aquela perto do ipê amarelo? Aquela se faz de professora feliz!

- Eu vejo uma outra ali, sentada na grama. Não é a universitária perdida?

- É. Ela teve momentos esfusiantes e momentos solitários. Me contaram que ela se fazia de feliz para encobrir a solidão em que vivia.

- E aquela dançando?

- Uma coitada. Essa aí consegue ser rejeitada tanto quanto admirada. E você, você sabe quem é?

- Sou a bobona. Deixei que roubassem meus sonhos, meus desejos, minhas vontades. Atendi ao que esperavam de mim. Não usei as roupas que eu queria, o corte de cabelo que gostava, não ouvi as músicas que me agradavam, nem dancei. Não sabia dizer não. E você, quem é?

- Ah, eu sou a vilã! Sei manipular, ludibriar, minto como ninguém e, como apareci depois de você, faço tudo o que você se negou a fazer. E o pior... faço ares de boa gente. Sou da pior espécie.

- Eu admito que não fui e não sou feliz. E você é?

- Que pergunta chata a sua! Tinha que vir de uma tontona feito você.

- Certo, não responda então. Mas... estamos em muitas aqui. Poderia, ao menos, me mostrar qual é a verdaderia Cris?

- Aí é que tá a brincadeira. É a única que se escondeu há anos e não foi encontrada. Todas essas que vemos e nós duas circulamos por aí. A verdadeira... dizem que sumiu!
Cris Marco
Enviado por Cris Marco em 25/07/2006
Reeditado em 19/01/2007
Código do texto: T202012

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Sobre a autora
Cris Marco
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
86 textos (4402 leituras)
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Cris Marco