Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

E até quando?

Mais um fim de tarde. O céu, de um azul profundo e intenso, vai mudando de cor. O vermelho do sol de outono, frio e pálido vai se misturando e em instantes, o mesmo céu, que reluzia azul, vira rosa, lilás e púrpura. A tarde dá lugar a noite e a primeira estrela surge. De brilho tímido e sutil ela vai descortinando lentamente, uma noite morna e agradável, de temperatura amena. Uma brisa suave chega com a lua, que é cheia e alva. Uma noite especial.

Era só mais um dia quando acordei, sem saber o que aconteceria, segui minha rotina normal, enfadonha as vezes. Mas era esse fim de tarde que trazia talvez a noite mais inesperada da minha vida. No meu caminho de volta para casa, antes do meu último compromisso eu me lembro de você e no ímpeto mais impensado te ligo. Sua voz atende incerta e surpresa. Você mal podia acreditar que eu estivesse te ligando, entendo... Depois da surpresa; um suspiro sorridente. Eu podia imaginar cada detalhe do deu rosto enquanto falávamos. Seus olhos de gato brilhavam, um pouco espremidos pela miopia talvez, seu sorriso de canto, meio entreaberto como se imaginasse meus lábios se aproximando dos seus, uma das mãos segurando o celular e a outra passeando por seus cabelos lisos e curtos. Você sempre foi assim. Uma mania? Não sei. Mas sempre que conversávamos e eu, dizendo coisas que pudessem te causar timidez; eu e minha sinceridade cortante; você desviava os olhos dos meus, sorria um sorriso acanhado e seus dedos começavam a passear pro entre os cabelos; num movimento sutil,macio. Você levava a mão a cabeça, começando pela têmpora esquerda do rosto e só terminava quando a mão, espalmada, encontrava a nuca...numa tentativa inútil de esconder toda a vontade que tinha de me beijar. Eu era capaz de ficar te olhando em cada segundo do seu ritual e como era perfeito.

Encontro marcado.

Você me esperaria e beberíamos alguma coisa. Segui para meu último compromisso do dia e cada segundo parecia durar uma eternidade. Mal conseguia me concentrar. Uma reunião de frases sem nexo e pessoas que não faziam o menor sentido. Eu queria você. Queria te ver, te encontrar, sentir o teu cheiro de novo. Uma estranha ansiedade toma conta dos meus pensamentos. Eu não sabia ao certo o que dizer. De repente eu não sabia mais porque havia te ligado. Não sabia o que esperar. Agi completamente dominada por meus instintos, pelo meu coração. Os minutos se passavam e a ansiedade tomava conta de mim. Agarrei o telefone, afoita e decidida a cancelar nosso encontro. Inventaria uma desculpa qualquer; o trânsito, um pneu furado, um atraso, São Paulo é imprevisível mesmo...Então me lembrei que era você quem iria ao meu encontro. Meu destino estava selado. Enfrentar tudo de novo. Assim haveria de ser.

Noite, hora de te encontrar. Deixo meus afazeres profissionais para trás e te avisto de longe, me esperando. Meu coração parece querer saltar do peito. Tenho a impressão de estar flutuando ao seu encontro; mal posso sentir meu corpo. É como se tudo parecesse um sonho, um filme desses de David Lynch; imprevisível onde fantasia e realidade se misturam e nada parece fazer sentido até que, nos últimos minutos, o quebra-cabeça se encaixa.
São cinquenta, talvez vinte metros e você me vê. Sorri e caminha ao meu encontro. Com seus passos largos e desleixados, de moleque. Você vem sem pressa como se quisesse prender na memória cada milímetro do meu corpo, inteiro, ali; antes de finalmente poder sentí-lo.

Você se aproxima e me abraça. Há muito não nos víamos. Senti saudades. Trocamos um cumprimento como se testássemos nossas vozes apenas. E aí??? Tudo bem??? Frases jogadas a esmo, como se as respostas não tivessem importância. Seguimos caminhando lado a lado. Andamos até um bar próximo dali, um pé sujo como dizem; simples, mesinhas dobráveis de madeira, espalhadas pela calçada e a vista? Rua, uma avenida para ser mais exata, de duas mãos, larga, seis pistas, faróis, placas, carros; tudo dentro dos padrões de uma grande metrópole, caótica e imprevisível, como seria nosso encontro.

Você se mostrava como de costume, indecifrável, um mistério. Uma mistura perfeita de conhecido e desconhecido. Tanto eu já sabia a seu respeito; olhares, sorrisos, maneiras; e tão pouco eu sabia de concreto e real. Era como se eu; depois de ter entrado em um labirinto de espelhos e ter finalmente saído dele; não estivesse satisfeita. Lá estava eu a sua frente, pronta para entrar no labirinto e me perder por entre os espelhos de novo. Um jogo que eu gosto de jogar, que me faz sentir viva, com medo e perdida. Lá estávamos nós, bebendo e conversando, inicialmente sobre coisas corriqueiras, trabalho, família, São Paulo. Passa o tempo e o álcool já me faz turvo o raciocínio, inebria meus sentidos e minha percepção. Sem nos darmos conta já estamos brindando. A que? Ao nosso encontro, nossas vidas, aos filhos que supostamente teremos, a nós.

Os assuntos são milhares, diversos, temos tanto o que viver ainda, eu penso. Todo aquele medo e todas as minhas incertezas vão sumindo, como que diluídas por risos, olhares, toques. São algumas palavras, são os gestos, são todas as coisas em comum que temos. Nossas diferenças parecem nos atrair mais, nos aproximam e nossas semelhanças...essas não são coincidências. Tal coisa não existe. Todos os meus anos de vida me fazem crer, cada vez mais que, todas as pessoas que nos rodeiam tem uma razão de estarem ali. E a razão única e exclusiva é cada um de nós. Se te tenho ao meu lado é porque, inconscientemente eu te atraí até mim, você me completa de alguma maneira e eu a você. È assim com todos os que estão presentes em nossas vidas.  As  razões aparentes são só disfarces da vida para que não possamos perceber o grande jogo, o tabuleiro imenso de xadrez que se esconde em nosso inconsciente.

Racionais, irracionais, conscientes ou não, estávamos ali novamente. Eu entregue, completamente rendida, envolta por seus braços, sem pensar,sem mais perguntas, sem tentar achar respostas novamente. E até quando?
 

   
 
Mari Mérola
Enviado por Mari Mérola em 26/07/2006
Reeditado em 26/07/2006
Código do texto: T202053
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Mari Mérola
São Paulo - São Paulo - Brasil
29 textos (2257 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 04:27)
Mari Mérola