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"você é filho de Maria Antonieta?"

Penso em criar um alter ego. Chega de mim – desabafo. Estou encarando muito de frente este meu "eu" que não me aprova - isso me judia de certa forma, não dá para negar. Preciso, para isso, de um nome curto, cujo rasgo sonoro dos fonemas atinja o ouvido de bate e pronto, (espirre aí para ver se me vem algo, vamos! ) Aliás, quase sempre, via de regra, os escritores , os bons, aqueles que fogem da mediocridade fordista de um Paulo Coelho por exemplo , criam personagens à sua imagem e semelhança, e quando não são, observam seus habitats tal como num ritual diário .Pinçam bons sujeitos do mundo real e os transformam em história. A vida é o grande laboratório para a arte. E o inverso também vale.
Fixo então na frase que Manoel Carlos, famoso escritor de novas da Rede Globo, comentou em recente entrevista à revista Imprensa: "a vida é um grande clichê e não há como fugir disso''. Penso eu que durante esses meus 20 anos de dias normais consegui experiências suficientes para dar risada desta afirmação.
Visto assim de cima, de um Joelma ou Andraus, até parece um clichê; sempre um clichê prestes a ser incendiado. Imagino que ao coçar a sua barba de Spielberg, Maneco tentou justificar a repetição que há em suas histórias tomando como base algum conceito antropológico. Há o que chamamos de regras simbólicas: convenções presentes no senso comum de um povo que estabelecem uma forma de conduta. Mas isso definitivamente não torna a vida um clichê. Visto mais de cima ainda, numa visão de Atlas, percebemos que há algumas culturas semelhantes; gente que se junta pelas afinidades e pelas prenoções em comum. Mas a vida que tenho aqui, por exemplo, é inveropraticável (essa palavra foi eu que inventei) do outro lado do globo. Logo, a tese do novelista cai por terra pois no lá longe a vida é outra - nem melhor, nem pior e se quer diferente. É vida e esse termo, a palavra em si, justifica. O que ele procura mostrar há tempos no horário das oito é uma fotografia da classe média, uma fatia do bolo e só. Pois sabemos: convém a Globo retratar essa visão fantasiosa da realidade e tachá-la como clichê, manter no mais alto pódio a aristocracia verde e amarela. E digo mais: confio mais nas traídas de Nelson Rodrigues, nos bêbados de Bukowski e nos loucos de Dostoievski. A vida torna-se um pasmo clichê se observada por gente que tende a levá-la como tal.
Veja como as coisas podem se tornar diferentes. Imagine uma rotina rígida, massificada (esta é a minha). Acordar, trabalhar, comer, estudar e dormir - tudo na ponta do lápis. Ocorre, no entanto, que num dia desses um fato modificou a linha reta - em especial - uma linha reta e íngreme, a rua inclinada para cima que percorro todos os dias para trabalhar. Observado ali por uma senhora, dia após dia, uma senhora já com seus 45 anos presumo, decidiu me perguntar. Eu ouvia música em meus fones, tirei-os para ouvi-la melhor.. Aguardei a pergunta e ela veio: - você é o filho de Maria Antonieta? Ela complementou: - é que eu sempre vejo você passando por aqui e hoje eu resolvi perguntar - fiquei estagnado por alguns milésimos. Eu, após uma pasmaceira, disse que não e montei um sorrisinho de emergência, sem graça como um risco de lápis. Ela me afirmou que eu parecia muito com a dita senhora. Deu-me um tapinha nas costas e um envergonhado "desculpa". Seguimos adiante, cada um para o seu lado.
A vida não é um clichê - para o bem e para o mal. Teima na mente uma imagem que vi certo dia; uma família revirando o lixo da rua e a criança, um crioulinho raquítico de uns oito anos, gritando e se debatendo. Havia algum inseto lá no meio - não sei - que o machucou. Mas parecia ferida na alma, doía até em mim. Escatológico este nosso cotidiano, não? Nunca verei isto em novela, em filmete em cartaz, em nada. Vi e presenciei no mundo real, no plano da vida (mas continuo amando o cinismo do cinema).
A transgressão é a gasolina da novela; é o que choca, chama atenção e, consequentemente rende dinheiro e retorno aos patrocinadores. Este talvez seja o verdadeiro clichê: a persistência cega no que choca e no que gera lucro, aliada ao polimento comportamental que a classe média quer aparentar e ver . Sim, uma versão similar da vida, cuja encenação não provoque vômitos e gente tapando os olhos. Há pessoas - conheço várias - que tapam os olhos para o desagradável da vida. Bestas são, pois pense no quanto é rico esse botequim cheio de diversidades que é o nosso cotidiano. Como disse anteriormente, o mundo só vê a mancha.
Entrego os pontos, gostaria de morar em Londres, confesso - toda aquela ambientação inglesa, uma certa arrogância até, as culturas, a música, o mizancene, enfim. Abriria mão de muita coisa me proponho apenas a tolerar por esses lados. Mas não se trata de fuga, e sim, de melhora. Pois veja: o artista não deve se sentir feliz com o primeiro rascunho que faz. Este deve melhorar, pincelar aqui e acolá, viver para viver mais e melhor. E, ao partir para o lado de lá, perderei muita coisa por estes lados que lá não existirão. Coisas que gosto - o Brasil não é de todo um Jiló. Vida é, também, uma arte própria de inúmeras possibilidades.
E porque penso em criar um alter ego? Prova feita: por que posso assim, inclusive, livrar-me de meus próprios clichês e ser outro - a imaginação permite! Uma outra vida para outro ser. Serei então o filho de Maria Antonieta que nunca fui e me chamarei pela alcova de Asterisco. Posso? Posso! E eu aqui, posso viver para dar histórias ao Asterisco. Sem medo e sem Pedro, como diz o ditado. Oscar Wilde em um de seus ensaios fez a seguinte colocação "o que é verdadeiro para a arte, é verdadeiro para a vida ". Sinto que isto está certo. Não haverá paredes para a criação humana enquanto houver vida humana. A arte é a cura para vida; uma cura que pode ter a tragicidade de um homem só e a felicidade de um garanhão de porta de boate.
Michell Niero
Enviado por Michell Niero em 27/07/2006
Código do texto: T203529
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Sobre o autor
Michell Niero
Osasco - São Paulo - Brasil, 31 anos
37 textos (3065 leituras)
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Michell Niero