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ALICE, QUEM ODEIA O OUTRO LEVA O OUTRO PARA A CAMA

Preciso ir logo dizendo que esta frase não é minha, embora eu concorde muitíssimo com ela. O autor desta pérola é um jagunço do Guimarães Rosa. Jagunço bastante sábio este. Ingenuamente acreditamos que quem odeia alguém ou dele guarda ressentimentos, quer distância do objeto do ódio. Ledo engano. O ser humano é contraditório e um tanto sádico. Sempre tem aquele ponto desavisado do coração que saboreia a suprema satisfação de ver o desafeto infeliz e incomodado. E é este pequeno ponto desavisado que carrega o distinto para junto de si pelos séculos dos séculos, amém.
Alice ligou-me um dia, um tanto quanto enfurecida e muito mais magoada com atitudes recentes do RCB, seu ex (Rei da Cocada Branca,porque o cara é tão preconceituoso que nem a cocada pode ser preta. Então, não confundir com Roberto Carlos Braga).
- Menina, não dá pra acreditar. Sei que fiz um bocado de besteiras, sei que errei pra burro, magoei o cara...Mas eu também fui magoada nestes anos todos em comum. Mas estas dele são de matar. Primeiro, virei o que ele chamou de uma “desconhecida”. Atravessa a rua para não cruzar comigo. Até para falar sobre o filho da gente, tem que ser por e.mail...Parece coisa de gente doida. Ele leva a vida dele, tem outra pessoa tanto quanto eu..tá tocando a vida. Não dá pra entender, não mesmo.
Entendo perfeitamente o que ela sente. Realmente, coisa estranha, você passa uma vida junto. Juntos enfrentam o mundo, constroem coisas,  você faz um bocado de coisas legais pensando nos dois, você acerta um bocado. Mas no dia em que você pisa naquele calo mais complicado, e no caso dos rapazes, o orgulho de macho, você é o capeta e ninguém menos.
Pensando um pouco na conversa com Alice, acabei concluindo que o que realmente une pessoas não é o amor. O que cola as pessoas umas nas outras não é o amor. O amor precisa de algo para sobreviver que casamentos tiram: liberdade. Quem ama liberta-se e liberta ao objeto de amor. Porque o amor não consegue viver com o sofrimento do outro, então deixa o outro livre, ainda que doa.
O ódio, meus amigos, este é mais eficiente. Aprisiona-se ao outro e busca aprisioná-lo na mesma rede de ressentimentos em que está pendurado. Suprema felicidade ver a infelicidade do outro.
- Eu quero matar aquele sujeito, eu quero jogar água fervendo no pinto dele e ficar vendo ele pular...eu quero...
- Para aí, minha amiga. Pensa um pouco. Não será isso o que se deseja de você? Que pensando igual, fique presa ao objeto da sua raiva? Just let go, honey...let go. Você pretende continuar a dormir com o ex pelo resto da sua vida?
- Deus me livre, quero ser feliz, quero só viver e mais nada. E que ele também seja...
Não há opções, meus amigos. Só duas coisas funcionam aí: ou você ama o sujeito e o liberta, libertando-se a si mesmo ou você relega a criatura ao melhor lugar do mundo: o plano dos inexistentes. O sujeito não existe, é um holograma que você deleta quando quiser. Uma chave de liga e desliga vem bem a calhar para estes casos. Alice descobriu uma maneira.Quando a coisa se apresenta ela faz um exercício mental: “Isto não existe. Isto é um fruto da minha imaginação.” E aí, liga no piloto automático e acende a luz do “foda-se”.
Tudo isso por causa de uma única frase que lemos: “quem odeia o outro, leva o outro pra cama”. E, convenhamos, não tem graça nenhuma ir pra cama com o inimigo. Além disso, ele nem é real.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 28/05/2005
Código do texto: T20429

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai