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Retratos


Nossa vida é composta de retratos. Retratos do que vivemos e do ainda vamos viver. Retratos em nossa memória.

Alguns destes retratos são distribuídos e repassados, vistos e revistos por todos. Outros, são escusos, escondidos, somente nossos.

Alguns retratos são um grito constante do que sentimos, e, resolvemos, deliberadamente se mostramos ao mundo ou não. Esconder os retratos são escolhas. Muitas vezes, doloridas e cruéis escolhas. Mostrá-los, mais dolorido ainda, porque significa abrir a alma e, corajosamente, estampá-la para alegria e regozijo de outros. Significa jogar orgulho e dignidade por terra, ou talvez, não ter medo de dizer ao mundo o que lhe vai na alma e no coração.

Os meus retratos podem ser os teus retratos, e podem conter Maria’s e José’s que não querem constar em meus retratos. Restaria então, cortar-te, cortar Maria’s e José’s e mostrar me tão somente. Mas então, deixariam de ser meus retratos para serem somente figurinhas de um quebra-cabeças.

Negar a participação no que quer que seja, significa rasgar os retratos que compõem nossas vidas. Negar nossas histórias – histórias que são marcas, registros do que vivemos. Significa negar sentimentos. Escondê-los no mais profundo do ser e fazer de conta que nunca existiu.

Fazer de conta que um retrato não existe, rasgá-lo para não aparecer nele, significa que o momento em que foi tirado não importou. Foi um reles momento, banal, no qual estava só de passagem, por mero acaso.

Ponderadamente sabemos que mostrar nossos retratos pode invadir a privacidade de quem os partilhou conosco. Mostrar alguém, que, de livre arbítrio escolheu não mais fazer parte destes retratos. Então, o certo é rasgarmos os retratos, transformá-los em quebra-cabeças sem sentido por respeito a sentimentos alheios. E assim, nossa história fica incompleta. Aos pedaços.

Assim é a vida. Rasgarei meus retratos. Farei deles pedaços, queimando as demais partes, escolhendo delicadamente o que mostrar e o que não mostrar. Assim, Maria’s e José’s estarão protegidos, escondidos, e profundamente felizes. Não terão então, enganosamente, participado da minha história. 

Ponto final!


Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 29/07/2006
Reeditado em 22/10/2008
Código do texto: T204479

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Sobre a autora
Fátima Batista
Santo André - São Paulo - Brasil, 53 anos
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