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Desaversão *


*publicado no site http://www.patio.com.br/cronica

Aversão à multidão, eu sempre tive. De uns anos pra cá, mais ainda. Esses dias, no entanto, eu quis não mais ter, e fui toda fantasiada de espírito de festa pra uma boate-bar não tão abarrotada de gente; mas, pra mim, muito.

Fiz um esforço danado até abstrair a obrigação implícita de que ir a um lugar desses se tem de ser paquerada, ou paquerar. Fui sem isso, até porque eu não sei nem uma coisa, nem outra. Aliás, romântica como eu, não creio que qualquer amor que me venha a aparecer seja numa boate-bar. Que seja no nada, ou em indeterminado lugar.

Fico até muito aliviada quando no final da noite eu não paquero ninguém, e fico mais ainda quando ninguém me aborda. Não gosto de ser antipática com quem eu não conheço, mas eu não sei ser de outro jeito com quem me aborda sem me conhecer.

Até quase o raiar do sol, eu dancei. Mas se não fosse a cerveja pra me tirar a timidez de dançar errado, eu passaria a noite inteira só dando conta de todas as pessoas desencontradas da noite, mania de análises antropológicas.

Então analisando eu fiquei pouco, só até enquanto a timidez. E nesse pouco, fiquei com dó de um certo rapaz, que não gostou do beijo da moça que ele escolheu, nem ela do beijo dele. Ela se deu por satisfeita com o desencaixo do beijo, e ele, bem que tentou escapar: fumou um cigarro, olhou ao redor, viu que não ia conseguir nada melhor, e pronto: beijos insossos pro resto da noite, e mais uma história pra contar.

Dó tive também de duas meninas, que desfilaram sem parar pra mostrar o bronzeado, mas que, no final da noite, comentaram que iam sair dali no zero a zero. Fim de noite tenso, sem graça, de pouco mérito, e de pênaltis, em outro lugar.

A maioria das vezes que eu vou a um lugar de multidão, eu saio comovida com todas as pessoas desencontradas. Mas, dessa vez, nem tanto. Talvez por eu também estar. Fiquei mais foi com uma sensação de identificação, uma sensação de encontro com dores e desejos iguais, o encontro dos desencontrados.

Fui embora sem data pra voltar, cansada de dançar, de rir, cheia de sono, mas certa de que não é lá onde eu vou descobrir um preenchedor constante pro meu vazio, que anda constante. Mas pode ser lá que eu reencontre, seja um sentimento que eu perdi, seja alguém que eu já conheci.
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 29/07/2006
Reeditado em 30/07/2006
Código do texto: T204918
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro