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Pusilanimidade

   Todos nós, em determinado momento da nossa vida, agimos com pusilanimidade. Quando afirmo isso não estou querendo dizer que somos covardes por natureza. Não é isto. Mas, a fraqueza de decisão e a falta de animo para tomar, ou não, uma atitude,  sem sombra de dúvida já nos visitou em um dado momento. Quem nunca viveu um instante que, caso passado, achou que deveria ter sido mais áspero, dócil, tranqüilo, enérgico, paciente ou impaciente? Entretanto, uma coisa é agirmos com pusilanimidade numa circunstância inusitada, onde temos como álibi para justificar a nossa covardia o fator surpresa; outra, totalmente diversa, é sermos reiteradas vezes fracos de ânimo. Aí fica difícil. Estou sensibilizado como o meu vizinho que, desconfio, é um pusilânime exemplar. De onde vem minha desconfiança? Eis o caso: fui dia desses comprar um refrigerante perto daqui de casa; na volta, encontro seu Regivaldo. Seu Regivaldo é um doce de pessoa. Sabe aquelas pessoas que quando você fala com elas elas sempre têm um sorriso no rosto, ainda que não tenham motivos pra estar sorrindo? Pois bem, seu Regivaldo é uma delas. Sem profissão definida, seu Regis – como o chamo – após perder um emprego que tinha no comércio, como vendedor, não conseguiu mais se encaixar no mercado formal de trabalho. Isso há anos, me parece que há quinze ou vinte anos atrás. Casou-se com uma mulher totalmente diferente dele, Dona Carmina. Dª Carmina,  que chamamos Dª Ina, é responsável pelo sustento do lar. Mas, não só isso; a cervejinha apreciada por seu Regis, o cigarro que fuma, a gasolina do veículo, a roupa que veste e a comida que come são pagos pela esposa. Dª Ina é possuidora de uma dezena de imóveis de aluguel, além de ser aposentada como profissional da área de saúde. Sou, inclusive, inquilino e vizinho desta senhora. Às vezes, pouco nos diz muito acerca do caráter de uma pessoa; uma conversa de dez minutos nos dá indícios de com quem estamos tratando. Outro dia ela me confessou, falando de forma exaltada, que odiava a quem devia dinheiro a ela. A que conclusão elementar somos levados à partir da afirmação dessa senhora? Há um outro elemento complicador, além dos já citados,  no casamento de seu Regis e Dª Ina: têm uma filha única. A relação de pai e mãe com um(a) filho(a) único(a) é, salvo raríssimas exceções, complicadíssima. A relação de Dª Ina com sua filha não foge à regra. Não entro aqui em detalhes sórdidos pra não enfadar ninguém, sobretudo eu, mas só a titulo de exemplo, presenciei uma conversa que Dª Ina afirmava que sua filha - não por ser sua filha ,salientou - uma moça bonita de seus vinte anos de idade, é uma santa.
Bem, quanta divagação. Mas é necessário contextualizar minimamente. Os detalhes a que faço referencia são uma tentativa de desenhar um pálido perfil desta senhora, e desta família, que me parecem personagens literários. Eia! E não é a literatura uma representação do mundo no qual estamos mergulhados? Não somos, a depender da imaginação e do talento de quem escreve, personagens literários? Só mais um detalhe: Dª Ina fala compulsivamente. É palavrosa. Falar muito não é, à priori, um defeito. É muito bom escutar um palavroso inteligente e sensato falando. Escutar Dª Ina falando de suas doenças e do marido não é tão prazeroso assim. Detesta as cervejas que o marido toma nos finais de semana. Talvez também deteste os cigarros que o marido fuma e até o próprio marido. Não duvido disto. Entretanto, o que os une apesar de tantas aparentes diferenças? Arrisco uma resposta: A pusilanimidade de seu Regis. Volto pro encontro que tive com seu Regis e que fiz referência acima. Encontro-o por volta das dez da manhã e quem batesse o olho em seu Regis naquela manha chegaria à rápida conclusão de que no dia, ou noite anterior, seu Regis tinha tomado todas. Até aí tudo bem. Agora vai o detalhe que, quando observei, me fez desfalecer de forma indescritível: o olho esquerdo de seu Regis estava roxo como se tivesse levado um murro certeiro. Duvido que seu Regis tenha coragem de matar uma formiga, quanto mais se envolver numa briga. Não fiz, por discrição, comentário algum. Desconversei e paguei o que estava comprando. Nesse instante, a discrição que tive em não perguntar a seu Regis qual tinha sido a causa daquele olho roxo, não a teve duas senhoras que também estavam no estabelecimento e foram diretas. Seu Regis tartamudeou, ensaiou uma resposta, disse que tinha batido em algo. As senhoras perguntaram onde e, ele, sem responder, baixou a cabeça com uma vergonha que penso ser intraduzível em palavras e se foi. Fui levado a crer que Dª Ina, evangélica impertinente, tomada por uma ira quiçá semelhante àquela que sente por quem lhe deve algum valor, aproveitando-se do estado de embriaguez e da pusilanimidade perene de seu Regis, acertou-lhe um murro em cheio. Talvez a minha imaginação esteja criando situações, entretanto desconfio que não. Pergunto-me que situações de vida explicam ou esclarecem a servilidade a que nos submetemos de forma silenciosa? Quantos(as) pessoas têm se diminuído em função de conveniências discutíveis. Talvez só os pusilânimes não vejam quanto caro pagam por conveniências tão baratas.
Maio, 2006.
Alexandre Valdevino
Enviado por Alexandre Valdevino em 29/07/2006
Reeditado em 19/08/2008
Código do texto: T204949

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Sobre o autor
Alexandre Valdevino
Recife - Pernambuco - Brasil, 44 anos
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Alexandre Valdevino