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MARIO QUINTANA


Para comemorar o centenário de nascimento de Mario Quintana pensei escrever uma crônica, ou algo assim. Não consegui. São muitas as recordações dele, de um tempo, de lugares e de pessoas.(veja AS FRASES E AS RECORDAÇÕES aqui nesse Recanto das Letras) Assim, diante dessa minha incompetência – passageira, espero – encontro esse texto do Armindo Trevisan no jornal O Povo dessa querida Fortaleza; e publico-o, então.

Lá vai o poeta pelas ruas da cidade amada, o passo firme de quem conhece o chão onde pisa, o corpo ereto - mesmo ao peso dos 80 julhos nos ombros magros. Camisa negra sobre outra encarnada, um cigarro entre os dedos. Depois, em outra cena, vê-se Mario Quintana espiando o movimento, debruçado na varanda do hotel Majestic - onde o poeta solteirão fez seu lar. Agora, ele está dez anos mais moço, e todo serelepe, ao lado da jovem e bela atriz Bruna Lombardi (que o chama de "coisa fofa"), numa entrevista a Paulo Mendes Campos. Por estes dias, a tevê relembrou ao distinto público um pouco da figura meio menino, meio pássaro, meio anjo (torto, mas anjo) do aniversariante de hoje. Há exatos cem anos, numa manhã friíssima da miúda Alegrete, nascia, antes do tempo, o quarto filho do casal Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico, e da professora de francês Virgínia de Miranda Quintana. Para quem terá a vida adulta ligada às redações, é quase antecipatório o menino de sete anos ter aprendido a ler nas páginas de um jornal.

Mario Quintana viveu em Alegrete até os 13 anos, quando foi estudar, como aluno interno, no Colégio Militar de Porto Alegre. Na revista editada pelos cadetes, publicou seus primeiros versos. O rapazinho, que havia sido menino adoentado - teve beribéri, coqueluche, tifo, catapora e todo o elenco de mazelas de um tempo antes das vacinas nos bebês - vez em quando caía de cama. E por isso teve que se desligar da vida militar. Foi para o Rio de Janeiro, empregado na livraria Globo. Passou um ano por lá, voltou à querência natal, a trabalhar na farmácia paterna, em 1925. Em 26, ganha seu primeiro prêmio literário, com o conto A Sétima Personagem, em concurso promovido pelo jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre. Em 1929, ele já está na capital gaúcha, trabalhando como redator do diário O Estado do Rio Grande. Quando estoura a Revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas, Quintana se entusiasma e se alista voluntário no 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre.

Porém, sua revolução pessoal seria de outra maneira, bem diversa. Na década de 30, Mario Quintana continua a trabalhar no O Estado do Rio Grande, conciliando o metiê de redator ao de tradutor. Traduz obras e autores fundamentais da literatura mundial, a exemplo do monumental Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Quintana trouxe ao português também textos do filósofo Voltaire, da escritora inglesa Virginia Woolf e do poeta francês Gui de Maupassant, dentre outros. Em meados dos anos 30, retorna à livraria Globo, agora sob direção do escritor gaúcho Érico Veríssimo.

Mario Quintana nunca se casou nem teve filhos, mas falava ao coração das crianças e da juventude. Em 1939, Monteiro Lobato lê poemas dele na revista lbirapuitan, publicada em Alegrete, e escreve-lhe encomendando um livro. Mario aceita a incumbência, e assim surge Espelho Mágico, que será publicado apenas em 1951. Antes disso, sai um dos seus livros mais importantes (todo de sonetos) - aquele que lançou de vez o nome de Mario Quintana, A Rua dos Cataventos, publicado em 1940 pela editora Globo. Nesta década, ele passa a escrever a página Do Caderno H, no jornal Província de São Pedro. A página, diária, continuará a ser publicada em outros veículos por onde o poeta andou: o Correio do Povo, a partir de 1953, e depois no Caderno de Sábado do Correio do Povo (até 1980). Canções, seu segundo livro de poemas, é lançado em 1946.

Em 1948, sai o livro Sapato Florido, de prosa e poesia, e também o infanto-juvenil O Batalhão das Letras. Dois anos depois, Mario Quintana apresenta um livrinho, modesto, mas que será considerado pela crítica e público a sua obra prima: O Aprendiz de Feiticeiro. No comecinho dos anos 60, sob o título Poesias, sai publicado em único volume A Rua dos Cataventos, Canções, Sapato Florido, Espelho Mágico e O Aprendiz de Feiticeiro. Com 60 poemas inéditos, mais uma seleta organizada pelos cronistas Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, é publicada a Antologia Poética de Mario Quintana, em 1966, para celebrar seu aniversário de 60 anos. A Academia Brasileira de Letras presta-lhe uma homenagem, mas o poeta - que se inscrevera, pela terceira vez, a uma cadeira da ABL - perde a eleição. Escreve, então, um dos seus poemas mais famosos, o Poeminho do Contra: "Todos esses que aí estão/ atravancando meu caminho/ eles passarão.../ eu passarinho!".

Em 1968, é homenageado pela prefeitura de sua cidade natal com uma placa em bronze na praça principal de Alegrete, para a qual escreveu, com sua fina ironia e ferino bom humor: "Um engano em bronze, um engano eterno".
Neste mesmo ano, passa a viver no hotel Majestic - onde ficou até 1980. Na década de 70, Quintana escreve e publica o poema infanto-juvenil Pé de Pilão, com introdução de Érico Veríssimo, que escreveu: "Descobri outro dia que o Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora. (Ah! Como anjo seu nome não é Mario e sim Malaquias)".

Quando completa 70 anos, é agraciado com a medalha Negrinho do Pastoreio, pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul, e lança novo livro de poemas, Apontamentos de História Sobrenatural, que recebe o prêmio Pen Club de Poesia Brasileira. Na mesma década, reúne suas crônicas em dois volumes, A Vaca e o Hipogrifo e Na Volta da Esquina. Em 80 sai novo volume de poesia, Esconderijos do Tempo, e é homenageado outra vez pela ABL, que lhe concede o prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Em 1983, o hotel Majestic passa a se chamar Casa de Cultura Mario Quintana. O prédio, na rua dos Andradas, 736, é tombado como patrimônio histórico do Estado. Nesse mesmo ano, durante a III Festa Nacional do Disco, em Canela (RS), é lançado, pela gravadora Polygram (hoje Universal Music), o álbum duplo Antologia Poética de Mario Quintana. Em 85, a professora e crítica literária Tânia Carvalhal (que organizou a obra completa de Quintana em único volume, publicado ano passado) apresenta o álbum Quintana dos 8 aos 80, com fotos de Liane Neves e ilustrações de Liana Timm.

Aos 80 anos, em 1986, Mario Quintana, fumante inveterado, ainda tem fôlego de sete gatos. Lança Baú de Espantos, com 99 poemas inéditos. Em 1987 são publicados Da Preguiça como Método de Trabalho, uma seleta de crônicas publicadas em Do Caderno H, e Preparativos de Viagem, com reflexões do poeta sobre o mundo. Porta Giratória, de 1988, é um outro livro de prosa poética, em que os temas recorrentes de Quintana dão o tom: reflexões sobre o cotidiano, o tempo, a infância e a morte. Em 1989 é lançado livro novo, A Cor do Invisível, e ele é eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, em votação da qual participaram escritores de todo o Brasil. Mario Quintana, anjo travesso, ainda tem o que mostrar, do alto dos 85 anos: o livro de inéditos Velório sem Defunto. Em 1992, a editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul reedita A Rua dos Cataventos.

Nos derradeiros anos da vida, Mario Quintana está morando no oitavo andar do hotel Porto Alegre Residence, onde recebe os amigos para um café e dedos de prosa (e poesia). No dia 5 de maio de 1994, perto de inteirar 87 anos, Mario Quintana pede a conta. Sobre a "indesejada das gentes", escreveu, certa vez: "A morte é a libertação total - a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos". Pois, assim foi.



BIBLIOGRAFIA

A Rua dos Cataventos (1940)
Canções (1946)
Sapato Florido (1948)
O Batalhão das Letras (1948)
O Aprendiz de Feiticeiro (1950)
Espelho Mágico (1951)
Inéditos e Esparsos (1953)
Poesias (1962)
Antologia Poética (1966)
Pé de Pilão (1968)
Caderno H (1973)
Apontamentos de História Sobrenatural (1976)
A Vaca e o Hipogrifo (1977)
Prosa e Verso (1978)
Na Volta da Esquina (1979)
Esconderijos do Tempo (1980)
Nova Antologia Poética (1981)
Mário Quintana (1982)
Lili Inventa o Mundo (1983)
Os melhores poemas de Mário Quintana (1983)
Nariz de Vidro (1984)
O Sapato Amarelo (1984)
Primavera cruza o rio (1985)
Oitenta anos de poesia (1986)
Baú de espantos ((1986)
Da Preguiça como Método de Trabalho (1987)
Preparativos de Viagem (1987)
Porta Giratória (1988)
A Cor do Invisível (1989)
Antologia poética de Mário Quintana (1989)
Velório sem Defunto (1990)
Sapato Furado (1994)
Mario Quintana - Poesia completa (2005)



Da voluptuosidade
Tudo, mesmo a velhice, mesmo a doença,
Tudo comporta o seu prazer...
E até o pobre moribundo pensa
Na maneira mais suave de morrer...

Da Inútil Sabedoria
"Conhnece-te a ti mesmo." Dessa, agora.
O alcance não adivinho
Muito mais útil nos fora
Conhecer nosso vizinho...

Dos Hóspedes
Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia...

Da Morte
Um dia... pronto! me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer que me importa?... O diabo
É deixar de viver!

Da Saudade
A saudade que dói mais fundo
- e irremediavelmente -
é a saudade que temos de nós.

Sonho
Um poema em que não se notasse nem a suspeita
ênfase da simplicidade e que, ao lê-lo, nem sentirias que
ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando,
no mesmo instante, de teu próprio coração.
CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 30/07/2006
Código do texto: T205134
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