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Mesquinhos

Minha irmã comprou um apartamento. O ex-proprietário entregou-lhe as chaves na última sexta-feira. Ao adentrar, minha irmã verificou que havia uma “cratera” na lavanderia; o ex-dono havia retirado o tanquinho que estava ali.

Meu inquilino deixou a casa semana passada. Ele levou embora uma torneira!!! Ao comentar estes fatos no meu trabalho, uma colega me disse que no caso dela, o ex-inquilino levou todas as lâmpadas. Que povo mesquinho! Que mediocridade! Se tivessem pedido, pelo menos.

Não é por dinheiro. Minha irmã ia comprar outro tanquinho novo, com certeza. Uma torneira não me faz falta. É o ato sem vergonha que me deixa perplexo.

Esses dias fui ao supermercado. Atualmente, muitas coisas estão nas prateleiras protegidas por um recipiente de acrílico, um dispositivo que aciona um alarme caso o “cliente” tente afanar coisas de valor relativamente alto, como CD’s, DVD’s, Gilette Mach 3, etc. Isso, por si só, já é uma vergonha. Porém, hoje em dia estão colocando até camisinhas nestes dispositivos. Isso mesmo. Uma embalagem com 3 preservativos, custa aproximadamente R$ 2,50. Mas o pior: Nos postos de Saúde a distribuição é GRATUITA!

Sempre levar vantagem. A lei do Gerson. Isso estraga o país. Já imaginou quanto dinheiro é gasto nestes supermercados com esses dispositivos de segurança, além das câmeras, vigias e todo aparato para coibir esses ladrõezinhos sem vergonha? Isso repercute no custo operacional do mercado, e conseqüentemente esse gasto a mais é repassado para todos os preços, de alimentos inclusive, fazendo com que todos os consumidores paguem por isso. Fora às muitas empresas que deixam de investir e gerar empregos em nosso país, em função das altas taxas de criminalidade com que diariamente convivemos.

Ladrõezinhos sem-vergonhas. Estes são os piores. Deveriam ser presos e pegar prisão perpétua, devido a sua medíocridade. Não me refiro a roubar comida por necessidade, pois isso não deveria ser crime jamais. Mas se você quer fazer alguma coisa, mesmo que seja desonesta, pelo menos faça bem feito. Quer assaltar? Faça que nem os ladrões do banco central. Roubaram mais de R$ 150 milhões, e as autoridades nem perceberam. A única falha da quadrilha foi à ganância excessiva, fazendo com que cada um não se contentasse com a parte do bolo que retirou, e fosse atrás dos outros ladrões, o que culminou na morte de quase todos os integrantes. Agora, roubar camisinhas???É coisa de Ladrão pé-de-chinelo.

Hoje, ao vir trabalhar, havia muito trânsito, devido à volta as aulas. Numa avenida com 2 faixas, um espertinho tentou burlar a fila de carros, e inventou uma 3ª faixa imaginária. Passou todos os outros carros (uns 10), e tentou entrar na minha frente. Aqui não!!! Eu bato o carro, mas medíocres não passam na minha frente. Não mexo com ninguém, mas não mexam comigo!!! “Confusão eu não arrumo, mas também não peço arrego”, já dizia o sábio Zeca, um verdadeiro pagodeiro. Neste mesmo lugar, há um posto de gasolina na esquina. Quando fecha o farol, alguns mesquinhos cruzam o posto para não esperar os aproximadamente 30 segundos do sinal vermelho. Repare, que na maioria das vezes, estes carros estão amassados.

Os espertinhos sempre se dão mal. Tenha certeza que a pessoa que vendeu o AP (AP e não Apê...Latino agrhhhh) para minha irmã, deve ter se mudado para um barraco. Agora sei porque meu inquilino perdeu o emprego, e por isso teve que deixar minha casa. Ele deve ter roubado alguma lâmpada ou torneira no emprego dele.

Pensando bem, agora deduzo que o ladrão das camisinhas também seja o dono do carro amassado que tentou me passar hoje.

Nos países desenvolvidos não há jornaleiro. Você deixa o valor exato do jornal e retira apenas um. Não há cobrador de ônibus também. Você deixa o valor exato, e utiliza o transporte público. Ninguém confere. Alguns leitores medíocres (me desculpe) podem estar pensando que se isso ocorresse no Brasil, além de falir a editora e a empresa de ônibus, também aumentaria o desemprego, uma vez que não haveria o emprego do jornaleiro e do cobrador. Sem o jornaleiro como intermediário, o jornal poderia ser vendido mais barato, conseqüentemente seriam vendidos mais jornais, que geraria mais empregos na editora, nas gráficas, nas transportadoras do jornal e em toda a cadeia do setor. O mesmo ocorreria com a passagem de ônibus, repercutindo inclusive na melhoria do transporte público como um todo.

O pensamento medíocre também é comum nos brasileiros. Quando uma empresa brasileira abre uma filial no exterior, a maioria das pessoas questiona: porque abrir uma empresa lá fora, e não aqui? Gerar empregos lá fora e não aqui? Quantas empresas alemãs há no Brasil? Quantas Americanas? Quantas japonesas? São as 3 maiores economias do mundo. Serão que estão erradas? Vou explicar: a gente trabalha, e eles ficam com os lucros. É assim que se age com a cabeça, e não com a medíocridade.

O Brasil tem muitas coisas boas. Somos um povo alegre, que sabe muito bem enfrentar imensas adversidades com uma ótima dose de bom-humor. Recebemos muito bem pessoas de outras nacionalidades, o que resultou num povo maravilhoso, um miscigenação, etnias, raças, respeito as diferentes religiões, ou seja, um povo multicultural. Também somos muito solidários, apesar de muitas vezes não sabermos como ajudar quem precisa. Há inúmeras outras qualidades em nosso povo, que não caberia neste humilde texto. Mas hoje resolvi criticar este povo que tanto amo. Sei que algumas vezes ajo de forma “esperta”, pois entendo que esse costume já está incrustado em nossa cultura, mas tento não fazer. Mas também sei que essa esperteza nos atrasa. Quero acreditar que a maioria de nós não age assim na maioria das vezes. Pois se a maioria agir assim, no final do ano haverá eleições, e não importa quem vencer, Lula, Alckmin, Heloisa Helena, Enéas, Collor; podem até ressuscitar o JK, pois continuaremos sendo medíocres, mesquinhos e hipócritas. Dizem que a oportunidade faz o ladrão. Na minha modesta opinião, é a desonestidade que faz o ladrão.

ilsanches@gmail.com
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 31/07/2006
Reeditado em 01/08/2006
Código do texto: T206270

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Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
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