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presente de grego*

*achei este texto essa semana, acho que foi a primeira crônica que eu escrevi há uns cinco anos atrás, é até meio risível...mas vá lá!

Miguel e Guilherme, amigos de infância, padrinhos de casamento um do outro, trabalham na mesma repartição há incontáveis  anos.  Sempre foram companheiros incondicionais, daqueles de memórias, batismos e lágrimas.  Naquele ano, Miguel comemoraria 50 anos.  Sendo assim, prometeu uma festa para os melhores amigos.  Guilherme  procurava sondar o amigo, denunciando sua vontade meio sem jeito, embora sincera, de lhe presentear.  Miguel se fazia de rogado, pois sabia que sutileza não era a melhor qualidade de Guilherme, decididamente.  Mas toda vez que se encontravam, Miguel tratava logo de refrescar a memória do amigo, apontando a quantidade de dias que faltavam para o grande forrobodó.  Guilherme fazia tipo:
-Não sei se poderei ir, talvez tenha que levar Marisa à hemodiálise.
-Ah... não vem com essa Guilherme.  Poxa cara, você prometeu.  Vai estar todo mundo lá, até o Ivinho, há quanto tempo você não vê o Ivinho?  Desde aquele futebol lá em Jacarepaguá, você ainda tinha cabelo.
-Vou ver o que posso fazer Miguel, mas não prometo nada.
Miguel, já temendo por seu presente, apela:
-Meu melhor amigo não pode faltar, senão não tem festa.
Miguel era um fã confesso de Chico Buarque.  E isso não era segredo para ninguém, já que sempre que podia, parafraseava cretinamente o poeta tricolor.
Cristiano, filho de Guilherme, sabendo do mau gosto do pai, que é do tipo que dá presentes como se fossem pra si, resolveu dar uma força para Miguel.  Um dia, pai e filho, se encontram na sala para assistir ao jogo do fluminense pela semifinal do campeonato carioca.
-Senta aí rapaz que vai começar o jogo!
-Aí, pai, você já sabe o que vai comprar para o Miguel?
-Sei lá, estou pensando ainda, por que?
-Não é por nada, eu sei de um presente que agradaria na certa.
-Hum...
-O senhor sabe que o homem é fã de Chico, não sabe?
-Chico Anísio?
-Que Chico Anísio,Chico Buarque...
-Ah, sei...
-Então, este ano a gravadora lançou um disco, edição comemorativa contando  sua trajetória, não seria um ótimo presente?
-Vai Fábio Baaaalaaaaa, porra!  O que você disse?
-Falei do Chico, da coleção de CD’s.
-Ah, isso deve ser caro.
-Que nada, não é nem cinqüenta reais.  Ele vai chorar de alegria...Afinal, é seu melhor amigo.
-Chico, sei... vou pensar.
-É  gooool, gooool do FLUSÃO!!!!!!!
Bem, àquela altura Cristiano achava que já tinha plantado a semente Buarquiana no coração empedrecido de seu pai.  Ele  sabia como ninguém como o velho era turrão, um capricorniano super prático e metódico, apegado ao dinheiro como o quê.  Ao sair de casa, certo de ter feito sua boa ação do dia, ainda para parou num telefone público e ligou para Miguel.
-E aí Miguel?
-Ô meu garoto, como vai, e seu pai?
-Estamos bem, ainda mais depois da vitória do FLU, ganhar assim de 4 a 0 do Flamengo, nem preciso mais ver a final do campeonato.  Para mim já é campeão..  E a festa?  Tudo preparado?
-Tudo preparado, você vem não é.
-Infelizmente não posso, tenho trabalho na faculdade, mas meu pai irá na certa.  Ó, tentei te dar uma força com o presente.  Falei para ele do Chico e tal.
-Poxa, rapaz é mesmo, e ele?
-Você conhece o velho, ele fez que não se importou, mas acho que ele vai lembrar.  Ó, quando você ganhar os Cd’s, vai me emprestar hein...
-Claro, claro... mal posso espera para ouvi-los.  “Olé, olá”, “gota dágua”, “Carolina”, tomar um wisquinho, relembrar os velhos tempos...
-Beleza Miguel, deixa eu ir lá que meu cartão vai acabar.  Abraço!
-Tchau, meu garoto, valeu pela força.
No dia seguinte era o aniversário de Miguel e Cristiano estava certo de que desta vez seu pai seria generoso e desapegado.  Pegou o coletivo feliz, tirou da mochila seu walkman e os fones de ouvido e  assim que ligou o aparelho, tocava em uma rádio “João e Maria”.  Ele imaginou que deveria ser um presságio, um bom presságio.  Chico Buarque estava mais perto do que nunca.
Amanheceu.  Enfim, era o grande dia.  Aniversário de Miguel, tudo preparado, festa regada a cerveja, churrasco, wisqui e rememorações suburbanas.  Cristiano observou seu pai se arrumando para ir à festa, mas não viu o embrulho algum.  Bom, deve estar no carro, pensou.  E saiu para rua com seu skate.  Guilherme saiu apressado, tirou o embrulho de dentro do armário e desceu as escadas, entrou no carro e lá foi ele, convicto de que havia feito a escolha certa.  Ao chegar à casa de Miguel, cumprimentou-o, juntou-se à roda de barrigudos e carecas e começou e falar de futebol e de filhos e de quando a Vanderléia era musa e dos Carpenters e do Rivelino e todo esse papo de cinquentões.
Nisso, Miguel já estava agoniado à espera de seu presente, quando Guilherme lembrou, esfregando as mãos e limpando com a língua o bigode de espuma de cerveja.
-Rapaz, já ia esquecendo do seu presente, vou buscar lá no carro.  Ele foi e voltou afoito e saltitante com o pacote.  Ó, esse aí foi escolhido a dedo hein, aproveite bem.
-Miguel olhou para o embrulho, sentiu a pulsação cardíaca aumentar, suas bochechas coraram, houve um leve ressecamento nos lábios.  Não se lembrava da última vez que havia se sentido assim, acho que foi na formatura de minha filha, pensou.
Miguel pegou o pacote com as mãos sôfregas e começou a abri-lo, jogando papel para os lados.  Pessoas se juntavam em roda para ver o que era. De súbito,  a expressão de Miguel mudou, ele foi ficando pálido, foi trincando os dentes, percebia-se um leve tremor no canto da boca.  Alguns amigos tentaram ampara-lo temendo que ele fosse desmaiar.  Sua mulher, que assistia à tudo de longe, veio correndo acudir, trazendo um bocado de sal e arrastando as chinelas.  Ela chegou e foi logo perguntando.  Então, o que é meu filho?
Miguel, com expressão chocada, respondeu desolado:
É um alicate multi-funções.





Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 01/08/2006
Reeditado em 01/08/2006
Código do texto: T206874
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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