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Conversa ao pé do ouvido


Eu preciso que eles leiam e saibam que nós não dormimos em berço esplendido enquanto a gastança come solta lá em Brasília.
Não espero nada, senão que eles saibam que não somos todos pessoas sem ação, pacatos cidadãos a assistir placidamente a dança das cadeiras. Não estamos aqui acomodados em cadeiras alcochoadas, com ar condicionado, e seguranças a nos proteger; estamos com a cara no mundo, saindo à rua com medo de não voltar, correndo das pessoas estranhas. Contando caramingüás na hora de pagar as contas, e Deus sabe que lutamos muito pra sair do vermelho, mas está tão sufocante, que se a gente não se encher de coragem, se atira no meio da avenida.
Eles mataram a classe média, os micro empresários e o que se vê são alternativas humilhantes para sobreviver, enquanto nós mal vemos uma nota de cem reais, todos os dias ouvimos pela mídia que fulano, ciclano e beltrano levaram "tantos" mil na compra de ambulâncias, pelo esquema desse ou daquele. Alguém é punido? Não! Estão todos lá a postos para disputar novas eleições como se nada tivesse acontecido, todos saem ilesos das CPIs e dos julgamentos no senado, da Câmara ou seja lá onde for, até a justiça anda lá enrolada com liminares em troca de propinas daqui e dali. Qual a certeza que eu tenho? Que no meu ramo não vou sair do lugar é nunca, e eles? Eles vão continuar trocando de cadeiras, andando em seus carros blindados , confortavelmente instalados em suas mansões enquanto nós suamos a camisa pra pagar suas viagens, salários, mordomias e até o absurdo que gastam de gasolina. Não posso me conformar em viver na miséria enquanto eles cheios de processos e com uma vida pregressa imunda continuem dependendo de mim até para pagar os selos de suas correspondências! Ninguém tem vergonha na cara?
Pois eu tenho! E tenho vergonha de viver num país que só me faz passar vergonha lá fora.
Infelizmente não posso me mudar, senão nem estaria escrevendo, estaria de malas prontas atrás da minha 2ª cidadania.
Desculpe-me, mas essa é só a minha primeira carta, vou escrever outras, e alguém vai acabar me lendo, com certeza, a minha voz não é só minha, é a indignação de muita gente.
Se puder encaminhe para quantas pessoas dos órgãos públicos puder, governo e esferas políticas  que  forem do seu alcance, entre eles há de ter pessoas com brio, ou não?
 
 
 
Conversa ao pé do ouvido
 
 
Tem coisas que a gente vai empurrando com a barriga, mas quando a barriga começa a roncar fica difícil continuar a empurrar. Eu fiquei cá pensando como sair do buraco, aí me ocorreu que talvez daí me viesse alguma resposta, afinal quem tem a competência para engendrar negócios, gerenciar capital e sobretudo construir patrimônio sólido é quem está na sua posição, ou seja Vossa Senhoria, que claro há de concordar comigo que se eu o ajudei a chegar onde chegou também poderia me dar uma mãozinha.
Eu não sei ainda por onde começar, mas gostaria mesmo que me ajudasse, logo teremos eleições e eu posso tentar me eleger, acredite ainda sou suficientemente honesta para angariar votos, acho que sou um bocado conhecida e com um bom trabalho devo conseguir pelo menos chegar a deputada. Sei falar razoavelmente bem, sou articulada, e não tremo na hora de falar com as pessoas, eu só não sei mentir, isso talvez seja um problema, mas eu vou fazer força para aprender direitinho, não acho que seja difícil, visto que parece que todos os senhores o fazem com muita tranqüilidade não é?
Sei que devo ser um caso raro, uma microempresária quebrada, que nesse momento escreve ao som romântico das goteiras da casa que ainda consigo morar, mas não demore a me responder, por favor, meu senhorio já me acionou no jurídico, aí talvez percamos o contato. Tomara eu sair antes que desmorone tudo sobre minha cabeça, porque meu senhorio não é bem humorado como nós,e muito impaciente, além de achar que posso fazer consertos caros e pagar do meu bolso no imóvel que é dele.
Mas voltando ao nosso assunto, estou pensando seriamente em investir na minha imagem, para as próximas eleições, já que sou bem conhecida na net. Conto com seu apoio? Eu sei que não vai lhe pesar no bolso um pequeno apoio financeiro e uma indicação no seu partido, claro que não chove gente atrás de V.Sa pedindo esse tipo de aconselhamento e patrocínio, porque a classe trabalhadora vai bem obrigada; as pessoas estão satisfeitas com o que ganham, a maioria tem casa própria e vive em segurança, talvez eu não tenha sabido como ganhar o suficiente para comprar outra máquina de lavar roupas, depois que perdi a minha, mas afinal um pouco de exercício no tanque aos fins de semana faz muito bem, o que me incomoda é essa dúvida cruel: Será que entro para a política ou passo de microempresária quebrada e falida, para ambulante ou carroceira, seria ainda autônoma e feliz por ter trabalho.
Sabe eu devo lhe confessar, eu já fui apaixonada por política, fui sim senhor, e por um triz eu não me candidatei na minha cidade. Lá pelos anos 90 quando fervilhava o país com o grande escândalo de Collor de Mello, pouco antes da sua eleição eu já namorava com o PT, e ali no meio de toda aquela vergonha nacional, eu me rendi aos encantos do socialismo, aos discursos inflamados do Lula e dos seus companheiros, vesti a camisa dele e arrebanhei quantas pessoas pude, fazia debates calorosos, era chamada de "comunista" mas eu não me importava, eu acreditava no que ouvia e mais ainda nas coisas que eu falava.
Eu ficava muito entristecida pelas derrotas do Lula, mas sempre ajudava a eleger um senador, um deputado estadual e um federal, claro que sempre estava de olhos nos vereadores e prefeitos, e como eu vibrei com a vitória do PT, como eu fiquei feliz em ver o ex-operário, cheio de promessas e discurso fácil subindo aquela rampa! Eu achava que ele que sempre fora injustiçado iria consertar as mazelas desse país, e que jamais eu me envergonharia de ter insistido em votar no PT.
Mas isso tudo é nostálgico demais  e nada prático para quem pretende mudar de vida e de profissão, assim não vou ficar relembrando sonhos que foram superados pela realidade. Melhor mesmo é aproveitar que a maré nos convida a desempenhar funções que dão estabilidade de vida, plano de carreira e a certeza de um capital sólido , ensejando assim a construção de um patrimônio que possa garantir o futuro da minha prole.
Como sei que V.Sra. não vai me decepcionar, afinal nestes anos todos tenho sido fiel no meu voto, e paciente à espera de que alguma solução mudasse os rumos do país e conseqüentemente da minha vida de trabalhadora e microempresária, já começo a articular planos à espera da sua breve resposta.
Ah, não se preocupe eu sei que tudo que está sendo vinculado na mídia mesmo que seja totalmente verdade não vai afetar o seu cargo e o seu modo de pensar, como sei que cada CPI e cada investigação vai acabar sendo encerrada sem problemas e tudo cairá num esquecimento brutal e muito rápido, afinal esse país não tem memória. Sabemos que a justiça aqui é cega mesmo, rs, como a estátua da Ártemis ou Themis de olhos vendados. Coitada acho que se envergonharia em ficar ali segurando aquela balança de olhos vendados quando visse a Suzane atravessar os portões da prisão sem cumprir os 39 anos a que foi condenada, ela talvez chorasse ao ver o Champinha sair em plena véspera de festas com mestrado da FEBEM.
Não importa isso tudo não é, estarei aqui tranqüilamente aguardando da V.Sra. um sinal verde para eu prosseguir nos meus projetos, assim como uma assessoria abalizada para seguir em frente, já que me considero uma aspirante a essa promissora carreira que acabo de escolher para sair do empresariado e do anonimato.
 
Sem medo de assinar minhas linhas.
 
Atenciosamente
Angélica Teresa Almstadter
poeta e prosadora, despretensiosa e atenta.
 
Angélica Teresa Almstadter
Enviado por Angélica Teresa Almstadter em 03/08/2006
Código do texto: T208395

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Sobre a autora
Angélica Teresa Almstadter
Campinas - São Paulo - Brasil, 62 anos
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