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NAS FRANJAS DO MAR


                                Escrevo completamente nu. Quer dizer, quase completamente. Calço chinelos e uso relógio. Não posso andar sem chinelos para não pisar em falso. Relógio é indispensável na readaptação ao mundo. Voltei das férias.
                               À beira-mar a gente se acostuma ao despojamento. A vida em sociedade impõe roupas e acessórios. Ordem e progresso. Nenhum papel social se sustenta desnudo. Um executivo sem gravata, um médico de preto, um político sem fatiota, um mecânico de terno, um mendigo sem trapos. Como é que se pede socorro num hospital sem diferenciar faxineiras de médicos? O jornal Zero Hora, em reportagem antiga, vestiu de gari personalidades conhecidas no estado. Ninguém foi reconhecido. Os transeuntes olhavam a roupa, não o rosto. O poder dos tiranos, não se esconde em seus cabelos - como Sansão -, mas em suas vestes. Qualquer pessoa nua torna-se frágil. - Que digam os torturadores. - Bush seria mais bem sucedido se, ao invés de gastar  milhões com a guerra, tivesse, por meio de um espião especialmente treinado, feito Sadam desfilar com um vestididinho de chita em aparição pública. E vice-versa.
                             Aquela mulher ali, com as partes escancaradas aos raios UV-B, é uma juíza. Ao lado, um cirurgião famoso, lambe um sabugo em decúbito lateral. Se não fosse a gerente do hotel, eu não saberia ser deputado federal um senhor de sunga passeando com a mulher. Calção de banho igual ao meu, todas as manhãs, o diretor de uma importante empresa catarinense caminhava. Eu com dois, azul e verde, condenei-me ao usar o azul. Idiotice minha. Na praia, nem Clodovil se fixaria nessas bobagens.
                            Obesos, gordinhos, magros, feios, bonitos, dentuços, desdentados, cabeludos, carecas, normais, quase-normais, deficientes, pobres, ricos, subalternos, dominantes, loucos, sensatos, leitores, escritores, crianças, idosos. Mulheres bonitas com homens feios, mulheres feias com homens bonitos, mulheres feias com homens piores, dois feios, dois bonitos.
                                   A praia tem o poder de nos devolver ao paraíso. Todos muito iguais. Entre um homem e uma mulher quaisquer, há ínfimas diferenças. E quando tomam sol de costas, como me diz um amigo, las hay menos todavía. Quem manda e quem obedece, quem cria leis e quem as cumpre, os criminosos e os justos, os empresários e os empregados, os ricos e os pobres, sentam-se ou se deitam nas mesmas areias. Roupas de banho não são adequadas  à organização da sociedade em classes e funções. Por  isso, Maria, da surpreendente série da Globo Hoje é dia de Maria, buscava as franjas do mar. Acho.
                                    As franjas do mar sustentam a democracia e reequilibram um pouco o mundo. Estar pelado, ou quase, é retornar ao estado original, natural, essencial; é um modo discreto de renúncia a cargos e títulos. Todos se tornam iguais, ou, ao menos, muito parecidos. A brisa marinha enferruja arrogâncias e prepotências.
                            Amanhã estarei trabalhando. Vestido. Agora, aqui, seminu, ensaio resistência. Rebeldia solitária. Desejo simbólico de prolongar as férias e suas muitas utopias.
                       Acabo de ir ao banheiro ( ou será toilette?) agora e, ao me olhar no espelho, vi a enorme mentira da primeira frase. Um truquezinho de cronista para desconcertar o leitor. Eis a verdade:
 Além dos chinelos e do relógio, estou de óculos.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 03/08/2006
Código do texto: T208566
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5110 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 09:54)