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O homem e o seu umbigo - 1º de maio

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída.
Quem outras tantas a reconstruiu?...
Bertolt Brecht

O calendário mostra em vermelho: feriado. O primeiro depois da sagrada “semana santa”. Nada de novenas, jejuns... Só viajar, dormir todo dia, caminhar nos parques, comer as refeições especiais, flutuar na tela do computador... Tudo planejado e possível no feriado em homenagem ao trabalho. As estradas lotam de automóveis em busca de horizontes, maresias, serras... Famílias buscam a distração e o entretenimento longe das rotinas cansadas das indústrias, lojas e repartições.
Muitos nem sabem qual é o feriado, outros proclamam orgulhosos que é uma homenagem ao seu dia. Braços cansados, mentes esgotadas, vidas que sobrevivem nos alicerces possíveis... Diversas realizações, pronunciamentos de autoridades, cartões dos chefes, ou mesmo a alienação de quem só quer esquecer dos dias comuns.
Todo feriado tem seu mártir e representação no mundo cívico e religioso. Homenagens regadas a descanso e prazeres. Mas como presenciamos e passamos a história sem o resgate da origem? Por que existe um dia de repouso destinado à homenagem do trabalho?
Primeiro de maio, perdido entre os feriados nacionais, revitaliza a possibilidade de lazer do trabalhador, mas disfarça, nas festividades, a história de luta, resistência e organização da classe trabalhadora mundial. Um feriado criado consubstanciado nos milhares de anônimos que constróem nossas realidades. Operários, comerciários, funcionários públicos, industriários, altos executivos e secretários, todos empregados, trabalhadores, dispostos nas camadas sociais de uma sociedade fragmentada.
Depois de um século em que a significação do primeiro de maio e suas comemorações divergiram, assumindo posturas conciliatórias entre os movimentos operários e as atitudes governamentais e patronais, estamos no momento de plena alienação em que o homem, sem sequer saber a origem histórica do feriado internacional, deixa-se perder nas necessidades do umbigo e tece para si a melhor forma de entretenimento.
Em 1º de maio de 1886, foi realizada nos Estados Unidos uma das maiores greves já vistas, com demonstração de força e solidariedade, em torno da redução da jornada de trabalho para oito horas. Em Chicago, centro das luta, muitos operários largaram as ferramentas, animados com o esforço comum, e uniram-se no calor da união solidária, possibilitando a condução de um forte  processo de contestações e reivindicações.
O movimento operário foi reprimido violentamente pela polícia, apesar da presença de mulheres e crianças, e teve um saldo de seis mortos e centenas de feridos na fábrica MacCornick.
A indignação dos trabalhadores cresceu e foi convocado um grande comício no dia 5 de maio na Praça Haymarket. Antes de terminar o encontro, centenas de policiais armados cercaram os manifestantes e, sem que se saiba de onde, foi lançada uma bomba em direção ao esquadrão de polícia, causando a morte de oito deles. A isso seguiu uma selvagem e brutal repressão aos trabalhadores com grande número de vítimas.
Diante da impossibilidade de encontrar quem lançou a bomba, iniciou-se uma grande perseguição aos líderes anarquistas que percorreram o território norte-americano em busca da conscientização da classe operária. Culminou no julgamento sem direito à defesa e na condenação de todos os réus: cinco foram condenados a forca, sendo que um se suicidou na cadeia, e três condenados à prisão perpétua.
Augusto Spies, um dos anarquistas condenados à forca, declarou profeticamente antes de morrer: “Virá o dia em que o nosso silêncio será mais poderoso que as vozes que nos estrangulais hoje.”
Aniquila-se o movimento com a prisão e o silêncio dos seus líderes. Julgamentos cênicos que demonstram poder e covardia. Em 26 de junho de 1893, os mártires de Chicago foram considerados inocentes, e os que sobreviveram foram libertados. Foi reconhecido o caráter político e persecutório do julgamento.
Em homenagem a esse sangrento acontecimento, o Congresso da Segunda Internacional, realizado em Paris, em 1889, declarou o 1º de maio como dia de luta internacional do proletariado pela jornada de oito horas.
A maioria dos países comemora o primeiro de maio como um dia de homenagem ao trabalho. Os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália estão entre as poucas exceções que, por motivos distintos, comemoram o dia do trabalho em outras datas.
A história das relações trabalhistas assumiu contornos contextualizados com as situações políticas no século XX no mundo. No Brasil, durante o Estado Novo, o 1º de maio foi redesenhado no civismo. Getúlio Vargas instituiu o salário mínimo e o imposto sindical e declarou instalada a Justiça do Trabalho em 1º de maio de 1940 e, em 1943, o Decreto-lei nº 5.452 que formalizou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) também é datado em 1º de maio.
Por ironia, o feriado internacional do trabalho, dia marcado por tanto sangue e firmeza de propósitos dos mártires, por tanta luta, prisões e mortes, perdeu o significado de reivindicação dolorosa e de conquistas e se transformou em um dia de piqueniques, confraternizações e viagens. Pequenos prazeres consentidos!
Justiça, liberdade e trabalho para todos! Muitas foram as conquistas: décimo terceiro salário, férias, jornada de trabalho, regulamentação das forças de trabalho femininas e infantis, aposentadoria... Contudo, os direitos são conquistados todos os dias. Os trabalhadores não devem se alienar com promessas de governantes ou ceder seus direitos em função das inexoráveis realidades.
Devemos sempre buscar a justiça, a liberdade e o trabalho para todos a fim de construir uma sociedade justa e solidária em que o cidadão trabalhador sinta-se seguro e consciente da importância do seu papel.
Os direitos conquistados não podem ser desmontados em reformas políticas sem o efetivo conhecimento de sua extensão e sem o debate com a sociedade. Os discurso atuais são marcados pela manipulação da palavra e a força da mídia.
Restringem o direito à aposentadoria, flexibilizam os contratos de trabalho, diminuem os direitos de férias, 13º salário... Tudo em discursos retóricos e argumentos construídos com palavras impactantes em prol do bem comum. Será?
Argumentos como a globalização ou as tendências internacionais não podem incitar o homem a desfazer do homem. O trabalho é a forma mais digna de valorizar a criatividade e produção e deve ser resguardado com a atuação de todos e a representação de um sindicato forte e comprometido com as causas sociais.
Todos os dias são importantes para a construção dos ideais conquistados com tantas lutas. O homem precisa, sempre, ter consciência de sua importância, estar comprometido com suas tarefas, criar expectativas produtivas e descansar seguro nos momentos de lazer e intimidade. Mas...
             O trabalhador, acuado, cede com medo do desemprego e permanece com o sentido de impotência. Porém, quando estiver imobilizado demais pela alienação, sozinho demais para se sentir numa classe, abaixará a cabeça com tristeza e vergonha e verá que só restaram o homem e o seu umbigo.

No Brasil, o primeiro representante do Governo a declarar ponto facultativo no 1º de maio foi o Ministro da Fazenda Francisco Salles em 1912 para os funcionários deste Ministério. A decretação do feriado nacional só ocorreu em 1919.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 30/05/2005
Código do texto: T20857
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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