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Cenas cotidianas do descaso campo-grandense

Travessa José Bacha, centro de Campo Grande. Um cheiro podre toma conta do pátio do mercado municipal. O ar parece não circular e o intenso calor sufoca quem trabalha no emaranhado de barracas que formam o camelódromo. São três da tarde. Esse azucrinante odor vem do lixão formado na beira dos trilhos, em frente à construção neoclássica do colégio Osvaldo Cruz.
 O lixo vem de infinitos lugares, desde os açougues do mercado até os restaurantes da rua Sete de Setembro. Ele é despejado em enormes caçambas vermelhas, onde pessoas dividem espaço com moscas, pombos, frutas, verduras e restos de comida.
 Em cena, estão mendigos esfarrapados, vagabundos bêbados, moleques pedindo moedas, e índios vendendo palmito na praça, convivendo insatisfeitos com a podridão. Eles são os figurantes desse filme, que não está em cartaz nos porões de Brasília, e muito menos na assembléia legislativa do Estado ou na câmara de vereadores da cidade.
Nessa mesma hora, os atores principais devem estar em salões gelados do poder. Na prefeitura,  alguém deve estar tomando chá com Mussolini. Isso se ele não estiver na Itália, totalmente despreocupado, enquanto o preço do passe de ônibus sobe na mesma proporção do salário dos vereadores.
 Antigos revolucionários que usavam boinas vermelhas prometendo mudanças, agora discutem sobre pão e circo com “supersecretários”, devidamente acompanhados de uísque rótulo preto. As reuniões são dentro de um luxuoso e protegido palácio,  construído no meio de um parque. Do exemplo de Guevara, só permaneceu o hábito de fumar charutos, que agora são apreciados depois de um daqueles banquetes de vitelo pantaneiro.
 No lixão do mercado, a realidade é bem diferente do luxo que envolve os governantes. Um homem está com metade do corpo dentro de uma das fétidas caçambas. Quem ficasse há apenas alguns metros da boca do lixo, já se sentiria incomodado com as varejeiras.  Mas isso, é só até ver esse pobre cidadão mergulhado no meio da merda, no sentido literal do cheiro. Depois dessa visão infernal, tipicamente brasileira, qualquer sensação de desconforto desaparece rapidamente.
 Os açougues do mercado jogam quilos de carne todos os dias no lixão, provenientes da vontade de uma exigente clientela,  que manda limpar toda sujeira e toda gordura. Que são disputadas por dezenas  de esfomeados, abandonados por esse sistema que só enche a barriga de corruptos e desonestos.
 João Carlos, 34 anos, natural de Dourados, é um desses excluídos, ele luta para manter a sobrevivência de dois filhos. E devido a brigas por causa de dinheiro, João vive separado da mulher. Mas garante que não deixa passar um só mês sem levar o dinheiro da pensão.
Sua profissão é construir poços semi-artesianos, mas como quase ninguém procura pelos seus serviços, vem diariamente ao lixão buscar restos de carne. Que serão transformados em sabão, “atualmente é a única renda que tenho”, disse ele, com uma evidente sensação de desesperança.
Ler gibi é seu passatempo preferido, mas tem sido raro encontrar algum velho para ler. Em toda sua vida, lhe faltou tempo e dinheiro para se dedicar aos jornais e revistas, “vontade sempre tive de sobra”, desabafou.
Nesses quinze anos de trabalho no lixão, ele diz que é capaz de contar nos dedos, quantas vezes entrou no mercado para comprar algo. Segundo João, toda vez que tenta entrar, a história é sempre a mesma.  Há alguns meses por exemplo, ele precisou comprar arroz, e assim que passou pela porta, brutamontes que fazem a segurança  lhe abordaram com gritos e empurrões, “vaza daqui seu vagabundo fedorento, o que você quer não tem”.  Certamente, um outro tratamento é destinado aos doutores e madames, que visitam o mercado com seus filhinhos queridos para comer pastel. Mas, para o trabalhador que tem as roupas sujas pelo esforço do trabalho, resta somente a humilhação.
Cansado de tanta discriminação, ele conta que agora é mais fácil o mercado vir até ele, do que ele ir até o mercado. “Bom, agora chega de papo, que já tá na hora do trampo. O tempo passa e tem muito mais urubu chegando”, foram suas últimas palavras. Depois, João continuou a me fitar com um olhar brasileiramente abatido e frustrante. Mais um carregamento de lixo se aproximava.


domingo, 16 de março de 2003
Danilo Nuha
Enviado por Danilo Nuha em 03/08/2006
Reeditado em 11/08/2006
Código do texto: T208660
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Sobre o autor
Danilo Nuha
Japão, 38 anos
42 textos (47197 leituras)
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Danilo Nuha