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MENINAS EM VIAGEM

                                        Sempre que eu passo, elas estão esperando. À  qualquer hora, elas estão esperando. Elas estão na parada, ali no Boqueirão, esperando. Menores de idade e maiores. Sorriso apagado, cigarro aceso. O sol queimando as horas. Há uma viagem por ser feita. Alguém ou algum lugar as espera.
                                Todas as tardes, quando vou caminhar, eu as vejo. Penso se realmente pretendem viajar pois as roupas não seriam adequadas e nem confortáveis. Sandálias de salto, calças justas, decotes, muita maquiagem. Em bolsas pequenas pouco se guarda. Mala lhes falta. Irão a uma festa?  Um dia de festa as esperará  sem se cansar como elas na espera?
                                      “Que horas são, tio?” – perguntou-me uma tarde a de blusa vermelha. “Dezoito em ponto”, eu disse. O ônibus não vinha.  Precisava esperar. Baixou a alça da blusa, acendeu um cigarro, olhou-me sedutora. Seguiu esperando.
                              Estariam na parada errada? Sonham viajar para uma cidade  inexistente? Esperariam um príncipe num cavalo branco ou uma carruagem de contos de fadas? Esperam algum ônibus para a Escola de Magia com Harry Potter?
                               O que é certo é que têm paciência. Caminho uma hora e pouco. Vou e volto, elas permanecem. Confusas e indecisas. Deve ser isso. Retocam a maquiagem, trocam a perna de apoio, ajeitam o decote, renovam o cigarro. Não conhecem bem a linha, perderam as referências. Por conta da indecisão o tempo passa. Algumas até envelhecem ali. Poucas escolhas. Saberiam para aonde ir mas não teriam a passagem  necessária? Difícil saber. Estariam querendo mudar de país ou planeta?
                               Essas meninas esperam uma linha ainda não inventada. É o mais razoável. Um ônibus que as levará para um bairro com dignidade, uma cidade com trabalho, cultura, escola, família, felicidade.
                                          Hoje, quando eu passei caminhando no final da tarde, depois de um pouco de conversa, uma delas entrou num automóvel barato. Quem sabe se cansou de esperar esta linha nova e resolveu voltar para casa. Ou, então, aquele homem de meia idade conseguiu convencê-la a regressar amanhã, quando a nova linha já esteja funcionando.
                                       Outras quatro ou cinco seguiram no ponto. Elas pensam que os novos ônibus podem começar a circular, ainda hoje, a qualquer hora. Elas estão ali e não se cansam. Querem ocupar os primeiros lugares.
                 
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 04/08/2006
Código do texto: T209036
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5112 leituras)
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