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NOITE CALMA DE IMBUIA



   NOITE CALMA DE IMBUIA

É noite em Imbuia,
Cidade de montanheses
Que vivem do fumo, do gado e da cebola;
É noite também em meu coração,
Já cansado de tantas desventuras...

Na noite de Imbuia,
Sob o céu de Santa Catarina,
Existem sons de ardorosos "quero-queros"
Com seu piar característico
Talvez anunciando chuva,
Talvez apenas assustados,
À passagem de uma vaca,
Procurando um lugar no campo
Para melhor ruminar...
Deitada sob o céu de estrelas...

Na rua deserta de Imbuia,
Apenas as sobras dos velhos prédios de madeira,
Obra dos primeiros colonos
Que aqui chegaram...
Talvez com o coração cheio de esperanças,
Como esperanças também havia no meu,
Quando aqui cheguei,
Com o meu carro amassado
E a minha cara-de-pau...

Na noite do meu coração
Também existe um campo, muito vasto,
Campo da minha tristeza
De ver as maldades do mundo.
Também nela existem "quero-queros",
Que clamam por querer paz;
Paz, amor e justiça...
Também nela existem velhos prédios,
Lembranças da minha infância,
E até uma rua de terra,
Terra sulcada de marcas,
Marcas deixadas pelas carroças
- Também de colonos -
Que foram os meus avós,
Dos dois lados da minha família...

Sim; venho de gente simples,
Simples como as flores do campo,
Simples e pacíficos,
Como um dia esta vila foi...
Pois hoje vejo apenas crimes,
Ódio, inveja e paixão
No coração desta gente,
Que, no passado, foi belo,
Cheio de ilusões e de sonho...
Como acontece no mundo atual,
Também aqui chegou a praga
Da atual desesperança
Que habita o interior de toda uma raça
Fadada à auto-destruição...

Também aqui chegou a mágoa,
Gerada pela desconfiança
E amparada pela ambição,
Após a vinda, de fora,
De homens de almas negras,
Após a chegada do abuso,
Dos mais fortes,
Na exploração dos mais fracos;
Após a transformação do coração do colono,
Outrora gente simples e boa,
Em pessoas desconfiadas,
Feridas e magoadas,
Com a exploração vinda de fora,
Usando da mentira,
Como argumento principal;
Após a aparição - tão nova por aqui -
Da imagem da televisão,
Com sua poluição moral e comercial,
Que encheu a alma do colono
De desconfiança e temor...

Assim transformam-se os tempos,
Assim modificam-se as pessoas;
Desta forma, surge o paradoxo:
Ao mesmo tempo que,
Da janela do quarto do velho hotel de madeira,
Observo a rua lá embaixo
- Sobre a sombra deste sobradão -
Com sua terra sulcada de rodas de charretes
E marcada de patas de cavalos;
Ao mesmo instante que,
Nesta imagem noturna e calma,
Retroage-se no tempo,
No mínimo sessenta anos;
Ao mesmo tempo
- E eis aí o paradoxo -
Observa-se o mesmo caos de hoje,
Numa imagem de outrora,
Trazido pela influência negativa
Das grandes cidades poluídas,
Na atmosfera e no espírito,
Através da comunicação humana,
Diretamente pela bocas dos homens de negócio,
Ou indiretamente pela imagem retransmitida;...
É o caos de um mundo em decadência,
Que se debate em gerras e conflitos
De âmbito local ou internacional;
É o paradoxo do ser,
Que não se encontrou a si mesmo,
E que procura fora de si,
O que, na realidade,
Está lá no fundo obscuro e misterioso - ainda -
Da alma humana...

Um dia, quem sabe, poderá
Este pobre e solitário ser
Chegar à triste conclusão
Que o mal está dentro,
E não fora de si;
Que todo o mal foi gerado por ele - pobre e solitário ser -
De forma "inapercebida",
Pois "não sabia o que estava fazendo",
Como disse um dia o próprio Cristo,
Pouco antes de morrer...
Mas talvez aí seja tarde demais,
Demasiadamente tarde
Para se fazer alguma coisa...
Talvez aí de nada valerá
Todos os tesouros da terra,
Acumulados durante milênios...
Nem toda a nossa Cultura,
Cultivada através das gerações de cientistas e pensadores,
Nos quatro cantos do mundo...
Talvez aí venha, afinal,
E de forma irreversível,
O cataclismo final...

Sim; é noite em Imbuia,
Mas também é noite
No meu pobre coração...

A noite de Imbuia é calma,
Mas os dias, não;
Da mesma forma, é calmo o meu espírito,
Mas triste o meu coração...

E, ao contrário,
Sou mais calmo durante o dia,
Quando o sol e a vida que levo,
Ofuscam o meu coração,
Mas sou mais instável à noite,
Quando se agita o meu espírito,
Ao pensar nestas coisas,
Que me vêm do fundo da alma,
Para agitar meu pensamento
Sob o inevitável influxo
Da minha observação...

É calma a noite em Imbuia,
Mas sofre o meu coração...

Como eu gostaria
Dos dias que vão no tempo,
Em que cidadinhas como Imbuia
Eram tranqüilas e calmas;
Quando os cavalos e as charretes,
Conduziam gente boa e simples,
Sem mágoa em seus corações...
Quando o mundo ainda tinha Paz
- Se é que em algum tempo teve -
E quando as pessoas amavam
De forma menos complicada;
E não como nos dias de hoje,
Que alteraram profundamente
Até o significado do amor,
Palavra cujo sentido verdadeiro,
Se é que algum dia o foi,
Tornou-se hoje desconhecido...

É noite calma em Imbuia,
Mas brilha o meu coração,
Em chamas pela desilusão
De ver a que ponto se tornou
Triste e desconfiado o pobre ser
Que habita este planeta,
Pois até aqui,
Nesta distante cidadinha da serra,
Observa-se a mesma sina
Que vem acompanhando os tempos modernos
- E que talvez sempre tenha existido
No coração do ser humano -:
A forte tendência às paixões,
Mas a total falta de controle
Para refreá-las;
A mesma ânsia de poder e de glória,
Mas a igual incapacidade
Para ser completamente feliz;
A idêntica busca, no suor,
Do próprio sustento e da família,
Mas a mesma dificuldade
De fazer a família feliz;
E desta família humana nascem rebentos,
Crianças igualmente infelizes
Que um dia crescerão
E esparramarão pelo mundo
A mesma e pobre paixão...

É noite em Imbuia.
Estrelas brilham no céu.
Mas a rua que lembra o faroeste americano
De cem anos atrás,
Continua deserta,
Como deserto está o meu espírito,
Já agora mais calmo,
E sem tantas aflições,
Pelo menos por esta noite.
A descarga da poesia-em-prosa
Aliviou meu coração.
É noite calma em Imbuia,
É calmo o meu coração...

Eleomar Ziglia Lopes-Machado,
Imbuia, SC, em 21 de Março de 1981.


Eleomar Ziglia LopesMachado
Enviado por Eleomar Ziglia LopesMachado em 06/08/2006
Código do texto: T210128
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Sobre o autor
Eleomar Ziglia LopesMachado
Tupã - São Paulo - Brasil, 73 anos
23 textos (1060 leituras)
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