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POBRE COITADO ! ! !

                     

                    POBRE COITADO !!!



       Sempre que lhe contavam histórias sobre ladrões ela dizia: - “Não sei o que faria se lá em casa entrasse um ladrão. Acredito que cobriria a cabeça, fingiria estar dormindo e deixaria que ele levasse tudo que quisesse”.Pensava assim desde os tempos de ginásio, quando uma de suas professoras contara em sala de aula que ficara apavorada naquela noite porque receberam em sua casa a visita de um ladrão. E ela, a professora, agira desse modo: cobrira a cabeça e deixou rolar, só depois de ter certeza de que o ladrão saíra ( ela o viu sair entreolhando pelas cobertas)foi que acordou o marido e contou o ocorrido. Daí pra frente, ele foi tomar as providências necessárias para essas ocasiões.
    Realmente deve ser horrível acordar com um estranho dentro de sua casa, com más intenções como são os ladrões de hoje, não respeitando nem as crianças, que são criaturas indefesas, não podendo reagir ao ataque desses criminosos. Ia assim dizendo para suas amigas numa conversa descontraída e ao mesmo tempo preocupante, mas até então, nada havia acontecido que pudesse deixá-la intranqüila.  Tudo estava em paz na sua casa. Assim pensava e era assim que ela desejava que fosse.
   Embora fosse ainda jovem,já era casada, tinha dois filhos, lecionava nos Colégios da cidade e morava com seus pais. Saía sempre à noite com o marido; iam ao cinema, às festas, aproveitavam bastante as folgas que tinham, pois seus pais ficavam com as crianças e assim era uma tranqüilidade...
        Certa noite, após voltarem do cinema, o marido foi à festa de aniversário de um amigo. Foi só, pois ela se dizendo indisposta, sentindo-se cansada, não o quis acompanhar e foi logo para casa . Assim que chegou  a casa, acomodou-se  em sua cama, não sem antes passar em revista as crianças que, naquela hora, dormiam profundamente e, também, colocar uma cadeira atrás da porta que deixara só encostada, para que, quando o marido chegasse, pudesse entrar sem que  acordasse seus pais e a ela própria. Ele lhe dissera que voltaria cedo, que não iria demorar, seria apenas uma visita rápida para cumprimentar o amigo que fizera questão da presença do casal à sua festa.
        Moravam numa cidadezinha do interior mineiro e isso de deixar a porta encostada era comum entre seus habitantes, desde que não se alongassem muito noite-a-dentro. A cidade era tranqüila e raramente acontecia algum fato desagradável que chocasse seus moradores e que exigisse a ação de policiais para manter a ordem. Cidade do interior é uma delícia para se viver! Só mesmo quem mora ou já morou numa delas pode comprovar isso. A gente conhece todos( ou quase todos )os moradores, sabemos seus nomes, conhecemo-lhes os filhos, os pais, avós; sabemos onde trabalha cada um deles, enfim, é quase que uma só família. Depois foi deitar e tentar dormir poque o dia seguinte seria de muito trabalho nas escolas.
        Em sua cama, ela virava de um lado para outro sem conseguir dormir e não atinava com o motivo que a estava deixando ficar insone.
       O relógio da sala, um carrilhão que seu pai havia recebido de presente de seus companheiros de trabalho pela ocasião de seu qüinquagésimo aniversário, ficava na sala de jantar, em cima da cristaleira e bem próximo da porta de seu quarto. De sua cama, devido ao silêncio reinante, dava para ouvi-lo bater as horas e quarto de horas. Eram batidas com uma sonoridade bonita, e não fosse a hora avançada, seria até agradável ouvi-las. Ela já escutara  bater as doze badaladas há bem tempo e , vendo que o marido não chegava, levantou-se e foi fechar a porta; já era muito tarde para deixá-la só encostada, o marido que batesse quando chegasse, assim ela poderia dormir mais sossegada, o que ainda não tinha conseguido, devido, talvez,  à preocupação com a porta semi-aberta.
      E estava já num sono tranqüilo, quando um barulho, bem debaixo de sua janela, que se encontrava aberta, fê-la acordar e apavorar-se.
      Era novembro, embora estivéssemos na primavera, o verão já se pronunciava trazendo-nos um calor que prometia ser bem forte. Era o prenúncio de dias muito quentes que estavam para chegar. Como seu quarto dava para o quintal, era costume deixar a janela aberta para receber um pouco de ventilação e poder respirar melhor o ar puro durante a noite. Mas, ouvindo o barulho, tratou de ficar atenta e daí a instantes, para sua surpresa, ela viu, nada mais nada menos, que duas mãos pousarem  no parapeito da janela e logo em seguida um vulto ajeitando-se para pular dentro do quarto. O medo apoderou-se dela e sem que ela pudesse impedir, pois se encontrava assustada diante do inevitável, soltou um grito de pavor para logo depois emudecer-se. Estava paralisada pelo medo e não conseguia dizer uma palavra.
       Seus pais acordaram e acorreram ao seu quarto, perplexos, não entendendo o que estava acontecendo com sua filha; as crianças também acordaram assustadas sem saber o que se passava e foram chorando ao encontro da mãe. Naquele cenário, diante de tamanha confusão, sem que ela pudesse explicar o que acontecera, bem num cantinho do quarto, lá estava ele, o marido, pobre coitado, mais acabrunhado do que ladrão pego em serviço. Era ele que estava tentando pular a janela do quarto para entrar em casa sem incomodar os sogros e à mulher, devido ao avançado da hora.
        Pobre coitado, isso mesmo!!! Se ele pudesse adivinhar o que iria acontecer, com certeza teria tocado a campainha da casa, mesmo sabendo, que, assim fazendo, estaria acordando os sogros ou  a esposa, mas não passaria pelo vexame que passou... Sua intenção fora boa, mas ele não contava com a pilha de tijolos que cedeu ao peso de seu corpo, assim que ele apoiou nela para chegar até à altura da janela e se apoiar no parapeito para dar o impulso e conseguir pular para dentro do quarto. Não fora isso, estaria tudo normal, ele conseguiria entrar no quarto sem que ninguém o percebesse. Mas, como nem tudo nesta vida é perfeito, chega uma hora que "damos com o burro n´água" - uma expressão usada  no interior para dizer que alguma coisa deu errado - e foi o que aconteceu com ele.
       Passada a confusão e já refeita  do susto, ela se acalmou e tudo voltou ao normal. O marido abraçou-a carinhosamente, as crianças voltaram para suas camas e seus pais  foram tentar dormir o pouco que ainda  restava da noite.

       Renée Ribeiro de Almeida
Renée Ribeiro de Almeida
Enviado por Renée Ribeiro de Almeida em 06/08/2006
Código do texto: T210475
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Sobre a autora
Renée Ribeiro de Almeida
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 82 anos
21 textos (1165 leituras)
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Renée Ribeiro de Almeida