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                 Tarde de Inverno


Lendo o jornal, em uma aconchegante poltrona, na sala de estar, voltei o olhar através da vidraça,  e contemplei uma tarde de inverno, que faz as horas insípidas e enfadonhas...

 

Escolhi assistir o filme “Quem Somos Nós?”, que estava em cartaz, numa das salas de espetáculos do shopping mais próximo - comentava-se que era muito interessante - Certamente, a fita me traria satisfação!

           

Decidi sair logo, para alcançar a próxima sessão. Acomodei-me no carro, quando começaram a cair pingos de chuva suaves e raros... - a fria tarde, com o céu todo cinzento, estava mesmo convidativa para um filme que aquecesse a alma.

 

Já no trânsito, a caminho do shopping, em um farol, no cruzamento de uma grande avenida, visualizei dois garotos - desagasalhados e descalços - vendendo caixinhas com dropes, e, com seus rostinhos tristonhos, ofereciam a quem os quisesse comprar...

           

Os motoristas que,  apesar do friozinho, tinham os vidros do carro abaixados, os fechavam... – talvez, alguns, receosos de serem os garotos suspeitos; outros, porque não queriam ser importunados...

 

Procedi da mesma forma - optando por fechar o vidro que estava pouco aberto - mas, com sensação de grande desconforto, que me oprime, sempre que presencio esses quadros... E sentindo-me assim, pensava: “Deveria comprar os dropes ou, simplesmente, ignorar aquelas crianças? E se elas estivessem trabalhando para ajudar a família? Ou seriam filhos de mãe solteira, de carteira vazia, sem ter a quem recorrer? O que fazer?...”

           

Experimentei, naquele momento, o mesmo que, provavelmente, acontece com muitos: “Indignação contra nossas autoridades, que insensíveis ao problema, permitem que tais cenas sejam vistas com frequência...” - em quantos lugares elas se fazem presentes... Basta sair de casa e levaremos na memória aquelas imagens que machucam nossos corações.  

           

Assim, parada por algum tempo aguardando o demorado farol,  fiquei ponderando o lamentável episódio e bastante desolada, experenciei grande compaixão: “Delineava, mentalmente, um lar seguro e amoroso para aquelas pobres crianças!” - seria misericordioso, tão justo!

           

De repente, sinalizou-se que eu deveria prosseguir... Então, na movimentada avenida, procurei pelo primeiro retorno, o contornei, e regressei a casa. O meu lazer, seria substituído por uma melancólica reflexão...

                                        


                                           

©Daura Brasil
                                                          

São Paulo - 2005


Foto: Guilherme L. C. 
http:// www.SPMetropole.com

Daura Brasil
Enviado por Daura Brasil em 06/08/2006
Reeditado em 06/03/2012
Código do texto: T210597
Classificação de conteúdo: seguro

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