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MÃE INGÊNUA

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"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira." (Mário Quintana)

Uma amiga, que trabalha na redação de uma revista feminina, contou-me, certa vez, que recebeu de uma leitora o seguinte e-mail:

"Sou uma mãe novata e assídua leitora de sua coluna de conselhos para a mulher e o lar. Sempre faço o que você manda, por isso quero que me dê uma explicação. No último número, dirigindo-se às mães que não amamentam os filhos, você escreveu: Quando a criança terminar a mamadeira, lave-a bem em água corrente. Eu experimentei lavar minha filhinha na torneira, mas ela chorou tanto que eu desisti. O que devo fazer?"

Olhei bem para minha amiga e lhe perguntei zombeteiramente:

— É para acreditar?!

Infelizmente era, sua colega que também trabalha na revista, confirmou o fato.

Naquele momento, foi essa a primeira impressão que tive da assídua leitora de minha amiga; porque a linguagem oral conta com certos recursos para tornar o sentido preciso (gestos, expressão corporal ou facial, repetição, etc.). Além do mais, a comunicação oral convida-nos mais a opiniões acerca da intérprete que do conteúdo da obra comunicada. Quando fiz a transcrição da carta para o papel, pois era algo digno de nota, notei que a interpretação da leitora sobre o texto da colunista, era resultado de uma armadilha textual.

Apesar de ser algo natural e relativamente fácil usarmos a língua materna, o fato é que ao escrevermos podemos estar dizendo uma coisa enquanto o leitor poderá estar entendendo outra coisa completamente diferente do que estamos querendo comunicar. Como a linguagem escrita conta apenas com a palavra para compor um texto, o escritor precisa assumir a perspectiva do leitor, caso contrário pode dificultar a compreensão e criar para o ele uma armadilha chamada ambiguidade:

 "Quando a criança terminar a mamadeira, [lave-a] bem em água corrente." Lavar quem: a criança ou a mamadeira?

A leitora assídua interpretou que a criança é quem deveria ser bem lavada. Não é uma interpretação muito comum, mas acontece.

Em casos como esse, é compreensível a repetição do termo "mamadeira", como meio de evitar a ambiguidade: "Quando a criança terminar a mamadeira, lave bem a [mamadeira] em água corrente".

Pensando bem, nem haveria a necessidade de se repetir o termo, bastava ela escrever mamar, em vez de mamadeira, assim: “Quando a criança terminar de [mamar], lave bem a mamadeira em água corrente.” E fim de papo.

Dias depois, quando reencontrei minha amiga colunista, não lhe comentei nada, regra geral é uma tarefa ingrata... ®Sérgio.

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Se você encontrar erros (inclusive de português), relate-me.

Agradeço a leitura e, antecipadamente, qualquer comentário. Volte Sempre!

Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 09/08/2006
Reeditado em 26/07/2013
Código do texto: T212816
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 69 anos
1281 textos (21139567 leituras)
7 e-livros (8543 leituras)
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