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ALMERINDA

Fazia tempo que eles não se viam. Ela estava menos bonita. Aliás, bem menos. Cinqüenta ela não fazia mais. Mas, num baile da terceira idade ter ‘cinquentinha’ não era o fim do mundo. Podia até ser o começo. Ou recomeço. Já ele, estava muito bem. Nem parecia ser da safra de 1951. Ainda magro, barriga quase nada saliente, uma postura de lorde inglês. Um garotão. Malhava todos os dias. Bronzeado. Estava ao lado da pista de dança quando avistou-a à uns 15 metros. ‘Eu a conheço não sei de onde!’
Chegando mais perto, sem que ela percebesse, identificou-a.
“Almerinda!!” Gritou com surpresa, ao que ela o olhou e também quase não acreditava em seus olhos. Almerinda fora seu grande amor na adolescência. Isso à muito mais de 25 anos. Almerinda, moça de família, foi proibida de namorar Euclides por influencia do pai. Euclides, por sua vez, realmente não era um moço de família importante – coisa que o pai de Almerinda não abria mão num prospectivo genro. Mas era um bom moço. Como se isso importasse para o pai de Almerinda.
Sentou-se ao lado dela, reconhecendo aqueles olhos verdes da jovem senhora. Os olhos verdes eram a única coisa que ainda estava intacta. Engordara uns 30 quilos ou mais. Parecia ter sofrido na vida. Estava com um ar frágil. Era pálida. Mas os olhos verdes, ahhh, os olhos verdes eram os mesmos.
 - Euclides, você está muito bem. Faz quanto tempo?
 - Faz uns 30 anos? Quase isso? , disse não conseguindo ser hipócrita ao ponto de retribuir o elogio.
 - Pois é, e você o que fez da vida? Pensei muito em você por muito tempo.
 - É... eu também pensei, mas depois tive de me desligar daquilo tudo. Você sabe. Estudei medicina. Acabei casando. Mas hoje estou viúvo. Já faz quatro anos.

Não perguntou nada sobre ela, pareceu desinteressado, o pobre Euclides.

 - Imaginei que isso aconteceria, e você tem razão Euclides. Acabei me casando também. Tenho netos. Um deles é o Carlinhos, nasceu a pouco. Um amor. O Teobaldo inclusive está aqui, foi buscar água para eu tomar meu remédio. É um bom homem, mas do jeito dele.

Euclides pensou: ‘Netos? Teobaldo? Remédio? Bom, mas do jeito dele?’
Nisso, Teobaldo se aproximou.

 - Teobaldo, este é o Euclides, um amigo da adolescência. Olha que incrível encontra-lo aqui depois de tanto tempo.
 - Ah, você é o famoso Euclides. Almerinda falava muito sobre você. Muito prazer!! , se esforçando a parecer elegante, coisa que definitivamente não era.
 - Todo meu – disse o Euclides.
 - Teobaldo, mostra a foto do Carlinhos.

Teobaldo tinha uma foto do Carlinhos na carteira. Mostrou-a para Euclides.

 - Não é lindo meu netinho, Euclides? – perguntou Almerinda, com brilho nos olhos e com evidente aprovação de Teobaldo, que ainda segurava a carteira mostrando a foto para um Euclides que já nem olhava mais para o Carlinhos. Olhava para qualquer lugar, menos ali.

 - Não achei.
 - O que? Não achou? Como assim?
 - É não achei. Não posso?

Saiu de súbito e foi buscar uma Tônica.
Martins Filho
Enviado por Martins Filho em 01/06/2005
Código do texto: T21334
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Sobre o autor
Martins Filho
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
52 textos (5956 leituras)
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Martins Filho