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Carta a Goethe

O DIA E A VIDA

Agora eu entendo um de teus pensamentos,após observar crianças que acabaram de chegar, anjinhos de todas as etnias, chorando a maioria, alguns dormindo, outros olhando o que ainda não podiam  ver, ainda aqueles que sorrindo pareciam estar recebendo boas vindas dos guardiões do Criador que inspirou em cada um deles  o sopro divino da vida e da alma. Início da vida e de um aprendizado e preparação par o retorno, para a aspiração, de volta ao Criador. Caminhada inexorável pela infância, juventude, plenitude do ser como imagem fiel do Artesão do universo e velhice, Criador e criatura, paralelas seguindo rumo ao reencontro no infinito...

Comparo o nascimento daquelas crianças, de todos nós enfim, ao nascente e poente do nosso sol, determinando o dia e a noite.

A madrugada se assemelha àquele berçário. Aquelas crianças encerravam a beleza do início de uma vida, no campo a beleza da madrugada encerra o desabrochar da aurora, o orvalho nas plantas, o canto e o alvoroço dos pássaros marcando o romper da manhã, os galos amiudando o canto no iniciar do dia, não tem espetáculo mais belo, nada mais nos dá a sensação de sermos donos do universo.

Sem dúvidas é o paraíso terrestre que Adão desfrutou. Cada vez que fecho meus olhos, deixo que meus pensamentos voem à primavera da minha infância e sinto então o cheiro das matas, o perfume das flores que se realçam pelo banho matinal proporcionado pela majestade do sol que vem aparecendo de mansinho e explode em brilho, calor, fecundidade, energia da vida a se derramar pelas mãos generosas de Deus a alimentar os frutos da terra. É a vida a se revelar.

    Parece que todas as casas se incendiaram pela ação matutina do sol, em todas se pode ver os rolos de fumaça que saem pelas chaminés, o café da manhã que se prepara nos fogões a lenha, pão caseiro a se aquecer na chapa de ferro, banha derretida a se misturar ao trigo, leite quente e mate queimado com açúcar pelas brasas do fogão, que misturados à água límpida do poço transformam a infusão no delicioso chá que reconforta o corpo.

Assim é a infância, assim é a aurora da vida, assim começou a vida daqueles bebês, assim começamos todos nós a seguir o rumo da luz.

    Ao meio dia, o sol a pino inflama o entusiasmo dos insetos, obriga os homens a se protegerem com chapéus de largas abas, o pó a se levantar da terra, faina continua da lavoura, como fizeram seus pais e os pais de seus pais, garantindo o sustento daqueles que um dia continuarão a girar na roda viva da vida. O céu de um infinito e profundo azul se parece com os olhos de Deus a contemplar os homens na terra. É a idade adulta, quando o homem mais se aproxima da Mente Divina e desafia o seu Criador, sujeitando-se a corretivos que a Ira Divina aplica, corrigindo a rota do encontro final, lançando agruras do dia a dia, como as tempestades que assolam os campos.“Tirarás da terra teu sustento com o suor do teu rosto”...

     Sim, as tempestades são o espelho das nossas dificuldades  que vem e  vão, conforme a vontade de Deus, conforme nossa disposição de desafio ou de aceitação.
A tempestade se anuncia e nos dá tempo de se proteger contra ela, se formos previdentes.

Começa rugindo à distância pelo ribombar dos trovões, o vento aos poucos ajunta em redemoinho as folhas secas das árvores, o tempo se fecha em escuridão como se os olhos Dele se fechassem, o sol se esconde  as nuvens se carregam . Na terra os animais se assustam e correm à deriva, em busca de proteção e enfim a chuva torrencial cai, como se fosse lágrimas derramadas por Deus, triste com o mau uso do livre arbítrio do homem.

Tempestades são com depurações ao espírito, burilamento do diamante que se somará aos tesouros da Criação. Traduz-se pelas tristezas de um mundo cheio de dinheiro, de ilusões, de ambições, de homens que se sentem Deus e pela disposição de Deus em ser homem e morrer por eles através de seu filho. A chuva são lágrimas do Criador, que mesmo entristecido molha a terra trazendo a vida, cumprindo o ciclo da criação.

Tempestades são os sofrimentos do homem que cai e vê o seu semelhante que passa e não o ajuda, que o olha de cima sem saber da obrigação de levantá-lo. Como havia dito Gabriel Garcia Marques, um homem só tem direito de olhar um outro de cima se for para ajudá-lo a se levantar.

Mas toda tempestade tem um fim. Alguns nela sucumbem, outros mais se fortalecem. Cessam os trovões, o vento empurra as escuras nuvens, e aos poucos o céu se tinge de azul, orgulhosamente o astro rei rebrilha, as flores se tornam mais bonitas, e a razão de Jesus aflora quando disse que nem Salomão com toda sua riqueza se vestiria como um lírio do campo. As folhas mortas iniciam o processo de transformação, de recriação dando origem a novas vidas.
 
Assim é o homem rumo ao entardecer da criação. Fortalecido pela intervenção da Sabedoria Divina segue rumo ao aperfeiçoamento que o levará a outros patamares que só o Criador conhece.

 A velhice do homem é tão bela quanto o entardecer nos campos. O sol desaparecendo ao longe, por trás das montanhas tingindo o firmamento com milhares de cores, nuvens coloridas enfeitam o céu e a primeira estrela brilha, como jóia riquíssima adornando o Criador. E os sábios desfiam odes em orações de louvor ao Artesão do universo. Pesado silêncio cai sobre as campinas, só quebrado pelo pio das corujas, pelo coaxar das rãs e pelo ruído do regato que corre levando vida, o sono merecido rega o espírito dos homens.

Termina o dia. Termina a vida.
 
Mas, Deus fez o mundo de forma que nada se criou depois da Sua ação e nada se acabou, tudo gira em constante transformação e o homem é parte deste movimento Sagrado.
A velhice é o poente da vida. É o homem que já está preparado para o renascimento, que cumpriu o trajeto desde os berços da maternidade e agora será aspirado pela bondade divina para uma nova transformação.
 
O decorrer da vida é um treinamento e preparação para a sublimação da alma.
Ah! Caro Goethe! Agora entendo quando disse que A VIDA É A INFÂNCIA DA IMORTALIDADE ! ...
Paulo de Tarso
Enviado por Paulo de Tarso em 12/08/2006
Reeditado em 02/11/2011
Código do texto: T214939

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Sobre o autor
Paulo de Tarso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 60 anos
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Paulo de Tarso