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                  Pai e Mestre

                          
(No dia dos pais)



     Meu pai não chegou a concluir o curso primário. Mas tinha uma indomável vontade de formar os oito filhos que lhe deram as noites de amor, com minha mãe, no acolhedor sertão cearense. Em minha casa, só não ganhou um diploma quem não quis.
     Pequeno comerciante no interior do Ceará, o Velho enfrentou, com audácia e galhardia, os percalços de sua profissão. Morreu sem acumular patacas, mas com dignidade. Como herança, deixou-me um irretocável exemplo de vida: foi um homem bom, justo e correto.
     Deu-me as melhores escolas de minha cidade. Mas não permitiu que somente às professoras coubesse a tarefa de me ensinar as primeiras letras e fazer as primeiras contas. Com sua ajuda, abri a primeira cartilha e a primeira tabuada.
     Estudou pouco. Mas era um craque nas quatro operações: somava, diminuía, multiplicava e dividia com impressionante desembaraço.Tinha uma letra firme, forte e excelente. A ele eu devo a minha caligrafia, que dizem ser muito boa. 
     Na Faculdade, um determinado professor falou-me muitas vezes da satisfação que sentia em corrigir até as bobagens que eu escrevia, tudo por causa da minha "excelente" letra.
     Aprendi, com facilidade, as primeiras regras da gramática. Mas, muito cedo, mostrei que jamais seria um bom matemático. Meu pai ignorava minha ojeriza aos números; sempre exigia que eu estivesse com a tabuada na ponta da língua.
     O Velho também me ajudou a conhecer um pouco de música. Graças a ele, ainda criança, fiquei sabendo o que era uma Clave de Sol e uma Clave de Fá; e a distinguir o sustenido do bemol. 
     Na sua juventude, ele fora um excelente clarinetista, disse-me minha mãe, sua musa, em demoradas noites de serestas.
     Apareceu na minha cidade, vindo dos Estados Unidos, um pastor protestante. O gringo chegou, e, imediatamente, montou um cursinho de Inglês. Meu pai, sem me consultar, comprou uma gramática, e me matriculou no curso do americano.
     O pastor demorou pouco no Iguatu. O curso acabou, e eu fechei a gramática inglesa para sempre. Coisa que, até hoje, me arrependo. Mormente quando ouço meus dois filhos, Paulo e Adriano, falando inglês fluentimente.
     Durante alguns anos frequentei os seminários seráficos. Sem vocação, tive que abandoná-los. O Velho ficou frustrado: ele queria um filho franciscano. Fiz-lhe ver, que preferia ser um bom católico a ser um sacerdote calhorda. Ele aceitou esse meu argumento.
     No Liceu do Ceará, conclui o curso científico. 
   O pai, então, passou a se preocupar com meu vestibular. Uma noite, num papo descontraído, disse-lhe da minha vontade de ser dentista. Ele pensou... pensou, fez um rodeio danado, e me perguntou: " Você não gostaria de ser advogado?"

     No início da década de 50, nos cafundós do Nordeste, o advogado era um profissional respeitado. Afinal, era o doutor que sabia ler, escrever, falar, e conhecia bem as Leis. Tinha, por conseguinte, tudo para enfrentar, com destemor, a ousadia dos "poderosos" do sertão.
     Tomei a indagação do Velho Raul como uma sugestão válida. Tratei de esquecer o boticão, e comecei a pensar na beca, na toga e no anel de rubi.
     Egresso dos seminários, passei com relativa facilidade no vestibular.  Na Faculdade de Direito da Universidade do Ceará cursei o primeiro ano. 
     Motivos de ordem particular, naquele instante inarredáveis, forçaram minha transferência para a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.  Em Salvador, no dia 8 de dezembro de 1961, colei grau.
     Com o canudo de bacharel na mão, fui curtir o Réveillon em Fortaleza. Na minha modesta casa, na Rua Agapito dos Santos, bairro de Jacarecanga, reuni os amigos e a parentela, na festa da formatura.  E diante de todos, comovido, ofereci meu anel ao meu pai, meu mestre.  
     Choramos juntos sob o olhar carinhoso e compreensivo de Maria Luiza, minha mãe, hoje, no céu ao lado do Velho...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 12/08/2006
Reeditado em 28/05/2014
Código do texto: T214998
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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