Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

               Amigos irrestritos


                                        Rosa Pena


Liguei para o cabeleireiro.
Estava com uma daquelas urgências femininas. Retocar as raízes do cabelo, pois agora meus cabelos nascem entremeados de fios brancos.
Cabelo branco em homem é show, é charme e rock’n roll. No sexo masculino, a referência é... olha aquele grisalho! Em nós... olha aquela coroa, só que no sentido de coroa de cemitério... cheia de flor roxa.
Queria também cortar as pontas, apenas as pontas... um dedo. Estão nascendo duplas desde que pintei o cabelo de louro. Necessito voltar a ser morena. Atendendo a pedidos de fãs (dois pedidos, mas já vira plural, tá?).
Atendeu aquela voz sensual da Dyane (leia daiani, que é como ela gosta de ser chamada):
— Bettu's coiffeur, boa tarde.
— Daiani, é Rosa. O Beto tem hora na sexta?
— Rosa, minha queridíssima, Betinho não está trabalhando esta semana. Teve um qüiproquó e está hospitalizado.
— Puts! Qüiproquó sério ou piti?
— Amiga, não sei... arroxeou e caiu no salão na terça. Acho que é sério. Quem está atendendo no lugar é o Celinho. Marcamos?
Pensei no Celinho. Lembrei que desde que ele pintou e cortou uma vez o meu cabelo, na falta do Beto, intitulei o salão de Trauma's coiffeur. Fiquei traumatizadíssima. Aliás, nós mulheres sabemos o que é pedir cor louro-dourado e ficar blonder (louro-branco). Terrível! Mandar cortar as pontas e a medida do cara ser em metros. Socorro!
Resolvi não marcar nada e saber onde estava o Beto, meu fiel cabeleireiro e analista há sete anos. Sempre ouve minhas catarses e opina errado. Como os analistas pelos quais passei. Servem para que eu ouça e faça exatamente o contrário.
Fiquei sabendo que estava internado próximo ao meu trabalho, não queria visitas. Mesmo assim resolvi ir até lá, no final do expediente. Afinal, gosto dele. É um ótimo profissional.
Comprei umas frutas e fui.
Chegando lá, perguntei por Beto... Primeiro mico. Ninguém sabia.
Então fui em Alberto, Roberto, Adalberto, e por aí. Nada.
Parti para a profissão, explicando que Beto devia ser o nickname dele... Outro mico. A recepcionista não deve usar net. Ficou olhando para mim, talvez imaginando se quem deveria estar internada não era eu.
Logo, avisou-me que tinha um senhor, da mesma profissão, porém de nome Lafaiete. Lafaiete Campos.
Perguntei se podia ver o seu Lafaiete um instantinho, na frestinha da porta. Ela deve ter pensado que “louco não se contraria” e permitiu.
Lá fui eu, quietinha, no tal quarto e dei de cara com o Beto no futuro. Sim, ele estava no ano de 2040, de tão envelhecido.
Descobri que ele usa aplique (uma pequena peruca) e se maquia. Estava sem ambos...
Olhou-me assustado e começou a chorar. Eu idem. Afinal, temos aquela intimidade restrita ao salão. Lá, somos amicíssimos.
Como tantos outros amigos. Íntimos em um grupo. Amigos da academia, da faculdade, da net, mas em outros lugares, quase estranhos. Poxa! Deu o estalo: amigos restritos.
Não significa falsidade, muito menos falta de amor. Apenas que o carinho sincero, a intimidade restrita àquele ambiente, não cabe no almoço de domingo, junto com irmãos e cunhados. Não cabe sempre. A gente fica diferente em cada situação de vida.
Existem amigos que perderam a restrição. Poucos geralmente. Daí definirmos como o amigo de fé, irmão camarada...
Pensei nisso na hora. Acho que por isso ele não queria ser visto daquela forma. Como eu, quando me operei. Não quis amigos restritos por perto. Perder o glamour? Nunquinha.
Merda feita, agora tinha que assumir o controle da situação que criei. E falei:
— Grande Beto. Tudo bom? (mais um vacilo).
— Rosa, o Beto está apenas no salão. Aqui está o Lafaiete. Velho, acabado e com nome de avenida.
Ele mandou benzão... Avenida Lafaiete Campos. Deu vontade de rir, aliás uma constante em minha vida. Rir nas horas erradas. Então, pensei nas crianças de Biafra. Consegui segurar o riso e disse:
— Meu amigo, somos maduros e sabemos que estas situações acontecem. Você sempre será o Betinho.
— Será, Rosa? Acho que não. Se todas me vissem assim, não confiariam suas cabeças a mim. Ninguém faz luzes com um coiffeur chamado Lafaiete Campos, velho, trêmulo, careca e barbado. Sabe, ir ao salão, para vocês, faz parte do show. É a introdução ao espetáculo. O pessoal gosta do charme louco do Betinho. Aqueles faniquitos, aquela áurea de mágico da tesoura. Então, querida, o Lafaiete fica em casa com a família, e quem vai pro salão é o Beto. Preferiria que não tivesse vindo — concluiu assoando o nariz.
Silêncio geral.
Deixei as frutas na mesinha, beijei aquela testa enrugada e dei um tchau silencioso com as mãos, encaminhando-me para a porta, morrendo de sem graça.
Já pronta para sair, ouvi a voz dele:
— Rosa, o Lafaiete morre aqui no hospital. Semana que vem, Betinho volta à ativa. Estará no salão. Se ainda quiser, marque hora.
— Posso marcar na quinta que vem? Preciso dar um trato geral! — falei com carinho.
Ele sorriu com alegria. A fisionomia voltou ao ano de 2003.
Nossa cumplicidade ficou estabelecida ali, sem palavras, sem juras ou promessas. Passamos naquele momento para a seara dos amigos irrestritos.


livro PreTextos
Rosa Pena 

Publicado anteriormente no Recanto das Letras em 23/10/2004
Registrado na Biblioteca Nacional

Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 23/01/2005
Reeditado em 12/04/2011
Código do texto: T2156
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Livros à venda

Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
960 textos (1414466 leituras)
48 áudios (24765 audições)
33 e-livros (28999 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 18:12)
Rosa Pena

Site do Escritor