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        Meus diletos cães de rua

    Pelos cães de rua, na sua maioria humildes vira-latas, tenho um inabalável e permanente carinho.
    Nos anos 1960, quando eu morava em uma república, na soteropolitana Rua da Faísca, um desses cachorrinhos me visitava todos os dias.  
    Perto da meia-noite, ele chegava balançando o empinado rabinho. E tantas foram as suas visitas, que nos tornamos bons amigos.
    Certa noite, ele acercou-se da minha janela com mais três cachorros. Os quatros cães faziam uma estranha algazarra. 
     De repente instalou-se entre eles um tumulto generalizado: todos latiam ao mesmo tempo, e se agrediam com extrema violência. 
      Foram sumariamente expulsos da minha rua. 
      Vi quando todos saíram em disparada e  desaparecerem na primeira esquina. 
      Meu amigo vira-lata nunca mais apareceu na minha república.

      Discriminados, maltratados, os cães de rua são cachorros sem pedigree, sem madames, sem butiques, sem lacinhos, sem xampus, sem história...  São, apenas, cachorros vira-latas.
      Nas campanhas de vacinação, são levados, aos sopapos, aos postos oficiais, quase sempre passageiros de constrangedoras carrocinhas; e até prova em contrário, são todos cães doentes.
      Morrem atropelados nas ruas e avenidas das grandes cidades, e quem os atropela nunca é punido. Será que a culpa é sempre dos vira-latas?
     Poucos têm acesso às igrejas, no dia de São Francisco de Assis. A maioria fica sem a bênção do padroeiro dos animais. 
     Outro dia, um jornal de Salvador publicou uma matéria sobre os cães vadios, que circulam pela cidade. 
    E o repórter fez esta observação: "Estes cães não são na verdade os que mais agridem o homem. O cão que mais ataca e morde é sempre o cão do vizinho", ou seja, o cão que tem casa; que tem dono. Perguntem aos nossos carteiros quais são os cachorros que eles mais temem.

    No século passado, Humberto de Campos  publicou uma crônica sentando a ripa nos "cães da meia-noite". Chama-os de "vagabundos noturnos".
    Acusa-os de bisbilhoteiros porque, na calada da noite, eles saem remexendo as latas de lixo deixadas nas portas das casas à espera do caminhão coletor.
    E para o belo escritor maranhense, "cada lata de lixo é, em suma, a crônica doméstica de uma família".
    O autor de Os Párias chega a propor a extinção desses desafortunados cachorros: - "É preciso acabar, evidentemente, com os cachorros de rua. Com essa história de meter o focinho nas latas em que há pedaços de jornais e folhas de livro, eles estão sabendo cousa demais." 
    Dono de um coração magnânimo, garanto que Humberto jamais proporia, pra valer, a extinção dos indefesos vira-latas noctívagos.

    Meu caro Humberto de Campos, os cães da meia-noite, esqueléticos, noctâmbulos, continuam, no início deste milênio, metendo a fuça nos sacos de lixo colocados, à noitinha, nas portas das residências. 
    Mas, meu  saudoso escritor, diante do que alguns jornais e algumas revistas andam ultimamente publicando, é provável que os cães de rua, na sua vagabundagem noturna, de súbito se recusem a meter seus focinhos nas lixeiras.
    Vão preferir continuar desinformados...

   Gostaria muito de saber por onde anda o amigo vira-lata da república da Faísca. Faz mais de quarenta e cinco anos que o vi pela última vez... 

 

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 14/08/2006
Reeditado em 07/08/2013
Código do texto: T216445
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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