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DESEMPREGO


Artur Inácio acordou bem cedinho. Faz o sinal-da-cruz, uma breve oração e pula da cama. Repetirá mais uma das centenas das últimas manhãs. Buscará emprego na capital paranaense. Sua competência? Faz de tudo. É pedreiro, mecânico, pintor, latoeiro. Sua preferência ser zelador, onde exista um pequeno apartamento que possa acomodá-lo e a sua família. Artur vive com Margarida e dois filhos pequenos de oito e nove anos. Logo os filhos vão poder ajudá-lo. Margarida, por enquanto é a única fonte
de renda da família. Quando ele não consegue nenhum “bico”, é ela, no trabalho de diarista, que traz o pão nosso de cada dia. Mas não há reclamações. Todos os dias, enquanto tomam uma caneca de cevada e comem um pãozinho adormecido, ambos enchem-se de esperanças.

— Pai, você vai hoje ver aquele anúncio de emprego de motorista particular? Lavei aquela tua camisa branca. Seria bom você barbear-se e colocar uma gravata. Para esse tipo de emprego eles querem o profissional bem arrumadinho.

— É verdade! Concorda Artur, com poucas palavras, já levantando se dirigindo ao quarto para atender a sugestão da mulher.

— Deus há de nos ajudar! Fala a esperançosa mulher.

Artur Inácio, enquanto se arrumava, sorri intimamente. A mãe dele, Dona Ana, quando lhe abençoava, lhe dizia, “filho levante às mãos para os céus. Você foi premiado quando casou com Margarida. Nunca vi essa mulher esmorecer. É cheia de entusiasmo. Juntos vocês vencerão. Logo, logo, você conseguirá o que almeja”.

Artur sabia realmente que era questão de tempo. Jamais desistiria de seu sonho. Este ano completaria o segundo grau. Com estudo, sabia que novas oportunidades surgiriam.

Confere o dinheiro da passagem do ônibus. Sabe que será mais um dia que ficará sem almoço, à noite, Margarida certamente o esperará com um feijãozinho e um charque.
Despede-se da mulher, beija a testa dos filhos e sai em busca do sonhado emprego.
Ao chegar no endereço que tinha anotado, aperta a campainha da enorme mansão.
A empregada ao saber que Artur era candidato a vaga de motorista, manda que ele preencha uma ficha e aguarde num dos bancos do jardim da residência, junto com os outros candidatos. Ao preencher a ficha deparou-se com a pergunta: Por que você quer este emprego de motorista particular? Porque acredito que sou um vencedor — escreveu.
Após ter escrito, Artur ficou um pouco temeroso com a resposta.
Não serei considerado um presunçoso? Enquanto divagava, foi chamado para o interior da casa. Estranhou, pois já havia outros candidatos na sua frente. “Talvez chamaram pela ordem alfabética” —  raciocinou.

Entrou numa enorme sala de estar. A dona da casa olhou firme dentro de seus olhos e questionou:
— É sério o que você respondeu na sua ficha de inscrição?
— Sim, minha senhora! Espero não ter sido desrespeitoso.
— Se é verdade o emprego é seu. Aqui não admitimos perdedores.

Artur disfarçadamente, saca o lenço do bolso traseiro e limpa seus olhos marejados.

Na cozinha da mansão, a empregada estava ouvindo aquela música de Roberto Carlos, “Jesus Cristo”.
Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 19/08/2006
Código do texto: T220044
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 75 anos
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Luiz Celso de Matos