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Crônicas da Esquina ( Rambos Tropicais )

RAMBOS TROPICAIS

É o refrão do samba quem diz: “Quem viu, quem viu não mente. Nas mãos de um fraco sempre morre um valente.” Tantas vezes corroborado pelos noticiários de jornais, rádio e televisão, o dito é mais que uma constatação: é um aviso. Sugere a belíssima composição que não se deve confiar nas aparências, aliás sempre enganosas, pois quando se tem muitos músculos, é tentador sentir-se um Sansão antes do corte à Dalilla. Assim, alheios às admoestações do velho e bom samba, esses Hércules de esquina e botequim engalfinham-se por qualquer razão ou razão nenhuma. Avaliada a fragilidade da vítima e a quantidade de gotas de álcool a mais nas idéias, desafiam:
Aí, Mané, eu tô trepado! Mas com você eu faço na mão!
Tal jargão, hoje na boca de qualquer Zé, refere-se às habilidades manuais de sair no tapa, mas inclui também o uso das pernas destinadas a, num relance, estirar o corpo de alguém no chão. Comum na velha malandragem da Lapa e outras paragens, a técnica atrofiou-se. O avanço da tecnologia bélica e sua rede facilitada de distribuição, fez com que o enfrentamento corpo a corpo perdesse em importância. Assim, caiu em desuso.
Por outro lado, é por vezes rememorado, especialmente em botequins e quando a razão e o bom senso vão se escoando pelas canaletas do mictório.
Sentado em sua cadeira cativa ( é o único em todo o bar a reivindica-la ), o velho Athayde confidencia aos amigos:
Aí, tá vendo? Querem ser mais malandros que a malandragem!
 Em sua vivência de muitos anos, ele sabe muito bem que a qualquer momento alguém poderá sacar alguma coisa que nos ofenda a vida.
Faro refinadíssimo, também o Augustinho percebe uma arenga quando ela ainda está sendo regada. Resmunga coisas que ninguém entende. Talvez evoque forças sobrenaturais que possam exorcizar a choldra que ameaça quebrar a paz e o recinto. Tuninho, mais aparvalhado, só percebe a coisa quando esta atinge níveis de temperatura e pressão limítrofes. E aí, espalha brasa! Sacam-se armas e tiram-se camisas. Os vitupérios assemelham-se aos gritos de uma torcida, dirigidos ao juiz pelo gol anulado. Corre-corre para todos os lados, a turma do deixa-disso tenta por panos quentes ( ou deveriam ser frios? ) e contornar a situação. Ânimos amainados, mas nem tanto, pequenos sobressaltos ainda espocam, aqui e ali, como pipocas tardias em fogo já apagado.
Serginho Metralha é um perito em debelar incêndios anunciados. Calmo, isola os fios desencapados antes que o curto comprometa toda a rede e atire o bar na escuridão.
Porém, após a tempestade, não a bonança, mas os destroços. Pode-se recolher os cacos, mas não o fio da meada dos agradáveis bate-papos das mesas avessas às rinhas desses homens-galos, onde quem perde é sempre muito perigoso. Convencido da desvantagem ou submetido a enxovalhos públicos, poderá resignar-se da sova. Ou não. Existe sempre a possibilidade de lembrar-se do samba, o que será uma temeridade muito grande. Quanto à esquina, ela aposta na amnésia, sinceramente aposta.

                                                                                      Aldo Guerra
                                                                                     Vila Isabel, RJ.

   
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 19/08/2006
Código do texto: T220457
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra