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Almoços de Domingo
Tere Penhabe

Se fosse possível, por certo acomodaria num baú, todos os almoços de domingo que povoam a minha memória, e o carregaria comigo para onde fosse.
São lembranças maravilhosas, que provocam emoção ao serem evocadas. As pessoas são diferentes umas das outras. As circunstâncias que as rodeiam, também são diferentes. Mas todas, num determinado ponto da vida, vão sendo lentamente rodeadas de silêncio.
Aquele silêncio que parecia tão benéfico, que a gente almejava tanto, nos almoços de domingo, tentando interpelar e acalmar as crianças, aquele silêncio chega a incomodar, num certo ponto da vida, de tanto que passa a existir.
E eu lembro muito do burburinho que povoava nossos domingos, o barulho de panelas grandes sendo manuseadas, o cheiro delicioso do assado... nunca mais eu senti, em lugar nenhum do mundo, o cheiro de pernil assado, igual aquele que a minha mãe fazia.
O molho da macarronada, denso e vermelho borbulhando na panela...como era delicioso aquele molho. E a gente ficava esperando minha mãe se afastar, para roubarmos um pouco do molho para o pão. Ela não gostava que mexêssemos nas suas panelas, mas mesmo assim a gente sempre conseguia efetuar os roubos de molho.
Eu fecho os olhos lentamente, e tenho impressão de ouvir asqueles chamados tão constantes... tiiiiiia... manhêêêê...Ziiiinha... quanta saudade!
Muitas vezes a confusão era tanta, que eu não sabia a quem atender primeiro.
Era comum precisar passar uma carraspana na peste do meu sobrinho mais velho, Luiz Henrique, porque ele maltratava todos os primos menores. Hoje é um homem, um grande homem!
A constante presença do meu irmão, num canto do sofá da sala, sempre risonho, como se a vida fosse uma grande brincadeira. Sempre queria comentar comigo os filmes que havíamos assistido. Eram conversas tão gostosas, tão descontraídas.
Muitas vezes, essas conversas eram interrompidas pelas crises histéricas da minha irmã mais velha, que enciumada da nossa amizade, resolvia brigar com as crianças, como se fosse uma delas...
Eu e meu irmão, sempre estivemos unidos contra ela, em toda a lembrança que eu tenho, desde que éramos muito crianças. Eu me lembro que ele dizia: esconde isso senão a jararaca quebra. A "jararaca" era ela. Ela era má, sentia prazer em me fazer chorar, e passou a vida tentando fazer a mesma coisa com meu irmão, mas ele não chorava. Eu acho que talvez ele tenha morrido tão cedo, para não precisar aprender a chorar, algum dia.
Mesmo assim, era muito bom contar com a presença da jararaca nos almoços de domingo. Como dizia minha mãe: irmãos precisam se dar bem...
Precisamos aproveitar ao máximo as alegrias que vivemos. Tudo na vida é passageiro, e um dia, o burburinho da alegria transforma-se em silêncio. Nesse dia, precisamos vasculhar a memória para encontrá-lo, ou então simplesmente fechar os olhos e ficar assim, na frente da janela deixando que o pensamento voe livre pelo universo... como as águias.
Quando ele volta, acomoda-se reconfortado dentro da gente, e pousa suavemente na saudade que se aconchega na alma, na parte mais bonita da alma...

Santos, 11/10/2004
Tere Penhabe
Enviado por Tere Penhabe em 19/08/2006
Código do texto: T220532

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Sobre a autora
Tere Penhabe
Santos - São Paulo - Brasil, 61 anos
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Tere Penhabe