Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Barrado na Daslu

Vagava eu, no meu fusca 74, pela Marginal Pinheiros. Avisto um Shopping Center. Nos letreiros, o nome: “Daslu”. Não sou jornalista nem repórter, mas um instinto investigador me aguçou. Resolvi averiguar.

Ao adentrar o shopping, me deparo com a absurda cobrança de R$ 20,00 pelo estacionamento. Quase custa mais caro que meu carro, mas tudo bem. O vigilante me olha meio ressabiado, até porque na minha frente havia um Jipão da BMW, e atrás outro importado que não consegui identificar; falando em um rádio, acena para mim, permitindo minha entrada. Logo encontro uma vaga para deixar meu velho e companheiro fusquinha.

Ao colocar os pés do lado de dentro da butique (é butique, e não boutique), um segurança “3 por 4” vem em minha direção. No seu crachá, o nome: Francisleidisson, ou algo parecido com isso. Está vestindo um terno italiano e em sua mão, um rádio de última geração; as palavras que diz nele são totalmente sem concordância, um português horrível. Porém, não perde a pose. Dirige-se a mim, da seguinte maneira: “O senhor não está autorizado a entrar no estabelecimento”. Pergunto-lhe o porquê, e ele responde: “O senhor não está vestido adequadamente”. Achei estranho, pois estava de calça Jeans, camiseta branca e All-Star, e normalmente vou a shoppings de bermuda e chinelo, mas tudo bem. Disse que gostaria de conversar com o gerente.

Depois de muitas trocas de farpas e desentendimentos, o Troglodita resolve chamá-lo. O meu argumento preponderante para que isso acontecesse, foi: “Vou chamar a polícia”. Nem precisou dizer que era a federal, e em instantes, uma loira vem em minha direção. No crachá, o nome ”Eliana alguma coisa”. Está vestida com roupas espalhafatosas, que me fizeram lembrar uma árvore de natal. Não entendi porque eu não podia entrar lá, e ela pode. Vai ver que é porque ela é a chefe, sei lá. A gerente, toda sorridente, feito um comercial da Colgate, pede-me desculpas, e disse que eu estava devidamente autorizado a conhecer as maravilhas do “mundo Daslu”. Eu disse a ela que aceitava as desculpas, mas que não estava mais interessado em conhecer porra nenhuma. Disse ainda, que queria os R$ 20,00 de volta, pois não iria pagar o estacionamento depois de tal aborrecimento. O segurança parecia furioso, mas ela sinalizou a ele para que permanecesse calado. Abriu a carteira toda brilhante e florida, e no meio de dólares, achou uma nota de R$ 20,00 e me deu. Entreguei a nota ao segurança (mais furioso ainda), disse que era gorjeta pelo serviço prestado, paguei o estacionamento e fui embora.

Engraçado. Tava com uma vontade tremenda de gastar R$ 200,00 em um par de meias. Acho que realmente não tenho cacife para entrar nesse lugar. Afinal, pago todos meus impostos, sou honesto e trabalhador. Não tenho empresas de fachada no exterior. A polícia federal nem sequer sabe que eu existo. Nunca fui preso. Tenho meu dinheirinho suficiente para tudo que preciso. Não sou granfino, não quero ser, e nem gosto de nada chique. Para mim, as coisas mais simples são as mais importantes. Não tenho terno Armani, nem celular de última geração. E o mais importante: não me chamo Francislaldisson.

Obs: Estória Fictícia.


ilsanches@gmail.com
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 20/08/2006
Reeditado em 20/08/2006
Código do texto: T221237

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, desde que seja dado crédito ao autor original e as obras derivadas sejam compartilhadas pela mesma licença. Você não pode fazer uso comercial desta obra.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
141 textos (12228 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 08:45)
Ivan Sanches