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"AMAR É QUASE UMA DOR"

             
                                   “ ...E o que é o sofrer,
                                        para mim que estou
                                jurado pra morrer de amor?”



        A vida sem amor não vale a pena. Amor é o motivo de tudo o que se faz. Amor pelo que se faz. E por que se faz. Seja o que quer que se faça. Somos seres racionais, mas, essencialmente, movidos a paixão. Genericamente. Quando se pratica algo que atenta contra si mesmo, seja fatalmente ou não, perdeu-se a paixão, não há por que viver.

Todos vivemos de encantamento. Por mais efêmero que seja, mostra-se-nos, naqueles breves instantes, tão eterno quanto a própria eternidade. Senão não seria encantamento. Cazuza, o poeta do rock, referiu-se magistralmente ao encantamento, quando cantou a hiperbólica “Exagerado” (“...jogado aos seus pés / eu sou mesmo exagerado / adoro um amor inventado”). Sua paixão pela vida encantou-nos em sua luta contínua contra o fim iminente, contagiando a todos. Assim é com todos. Luta-se, se não pela vida, que seja pelo que se almeja. Até mesmo o amor do outro, por que não?

Esse amor ao outro será mais belo se for movido pelo apelo sexual. Há aí a mais ferrenha luta: contra si mesmo e sua instintiva negação, contra o descaso do outro. Pois o amor (pelo menos, nós, em nome dele) exige reciprocidade. Cumplicidade. Via de regra, não sabemos – e não aceitamos – amar sozinhos. Ou amar, intransitivamente, como dizem os poetas. Somente Mário de Andrade, em seu espírito criativo. Ou o Poeta Maior (“Eu quero amar / amar a todos / e não amar a ninguém”). Muito belo, enquanto poema. Aliás, quem não conhece a fama de possessivo do próprio Drummond? Apesar de encantar a todos e reafirmar o amor incondicional, vide “As sem-razões do amor” (Eu te amo / porque não amo / bastante ou demais a mim. / Porque amor não se troca, / não se conjuga nem se ama. / Porque amor é amor a nada, / feliz e forte em si mesmo.”)

Que bom seria se realmente houvesse em nós a capacidade – desumana – de amar incondicionalmente! Sem exigir nada em troca; encantar-se, sem necessariamente encantar. Literalmente, enamorar-se (“Eu te amo / porque te amo. / Não precisas ser amante, / e nem sempre sabes sê-lo.”). Amar e ser amado é uma dádiva, como acertar na loteria. Concessão feita a poucos. Lindo o “chororô” de “assim como viver / sem ter amor não é viver / sem ter amor não é viver / não há você sem mim / eu não existo sem você”. Sentimental. E só.

Vivemos, sim, sem aquele outro. Amando sozinhos, sonhando com o nosso amor. Uma pessoa sem amante é um pudim sem o doce, uma limonada sem o limão. Até os animais irracionais, cada qual a sua maneira, mostram-se para aqueles a quem pretendem conquistar. Há, segundo estudos, verdadeiros rituais de acasalamento, interessantíssimos.

Infelizmente, a expressão “eu te amo” banalizou-se, pois acrescentam-lhe o adjunto adverbial “para sempre”. Ora, o que interessa é o amor, não o seu tempo de validade. Não é um produto que se ofereça, cuja garantia vai até a Copa do Mundo de 2050. O que importa é o agora, este instante. O que virá, como prometê-lo? Juram amor eterno aqueles que desconhecem a volubilidade que é própria do amor. “Eu te amo”, verbo no presente. Só. E está bom assim. Se estiver sempre “presente” no presente, excelente. Se não, que tenha valido a pena. Bem como disse o Poetinha: que seja infinito enquanto dure.

O amor se renova. Mesmo que seja o mesmo amor. Conquista-se a cada dia, a cada instante. É uma luta perene. Para tanto, usam-se artifícios, alguns válidos, outros nem tanto. Pode-se justificar usando Fernando Pessoa, dizendo que “tudo vale a pena / se a alma não é pequena”. Mas depende do ponto de vista. O “tamanho” dessa alma é relativo. Soa enorme a uns, mínimo a outros. Assim, em nome do amor, cometem-se gafes, erros imperdoáveis. De qualquer forma, ainda se pode questionar se era, realmente, amor. Alguns dirão que não, que era somente paixão. E há diferença entre eles? Como se definem? Se não é possível fazê-lo, também as semelhanças e diferenças se anulam. Esta é menor do que aquele? Se assim o for, não se justifica o adjetivo com que “enchemos a boca”: “apaixonado”.

Não há dor mais agradável que a de amor. Talvez mais agradável que a sensação de ser amado. O que causa aquela pontada “no coração” é o nosso amor, e não o amor do outro por nós. Este dói no outro. Infla o nosso ego. E só. Muitas vezes cobram de nós a reciprocidade do amor que nos devotam. Impossível. E a recíproca também é verdadeira. Deveríamos responder, quando nos dizem “eu te amo”, muito obrigado. Duro, mas real. Pode-se pensar que assim estamos matando o amor do outro. Ora, quem o mantém vivo é o outro, não eu. Aliás, “Amor é primo da morte, / e da morte vencedor, / por mais que o matem (e matam) / a cada instante de amor.” Essa morte, que acontece literalmente a cada instante, propicia um renascimento também constante. Amor novo é o que se procura sempre. Seja renovado, seja novo, ipsis litteris.
                                                10/07/05






Pabinha
Enviado por Pabinha em 20/08/2006
Reeditado em 30/06/2008
Código do texto: T221292
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Sobre o autor
Pabinha
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
32 textos (4979 leituras)
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